Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Modelo de Saúde para o idoso

Jornal do Brasil RENATO VERAS*

Sabemos que quanto mais o profissional de saúde conhece o histórico do seu paciente, melhores serão os resultados. É assim que devem funcionar os modelos contemporâneos e resolutivos de cuidado recomendados pelos mais importantes organismos nacionais e internacionais de saúde. 

Também sabemos que a transição demográfica está em curso e que cada ano que passa teremos mais idosos na sociedade. Aliado a esse fato, a transição epidemiológica faz com que se amplie as doenças crônicas e reduza as doenças agudas.

Mais idosos e mais idosos vivendo mais anos, aliado à multiplicidade de doenças crônicas faz com que se amplie o consumo do cuidado de saúde. O nosso modelo assistencial foi estruturado tendo o hospital como base, com inúmeros médicos especialistas, um excesso de exames clínicos e de imagens, e uma abundância de fármacos.

Além disso, uma importante característica do idoso é sua heterogeneidade. O mesmo subgrupo populacional é composto tanto por indivíduos hígidos e autônomos quanto por aqueles com dificuldades para realizar as atividades básicas do cotidiano, como tomar banho sozinho ou alimentar-se. 

A atual prestação de serviços de saúde fragmenta a atenção ao idoso, com multiplicação de consultas de especialistas, inúmeros fármacos, exames e outros procedimentos. Sobrecarrega o sistema, provoca despesas em todos os níveis e não gera benefícios significativos para a qualidade de vida. Assim, a mudança do modelo de assistência aos idosos demanda a formulação de concepções de cuidado que sejam capazes de abarcar as diferenças nas suas condições de saúde, respeitando especificidades e peculiaridades, reduzindo também os impactos financeiros para a sociedade.

Como consequência de uma população mais envelhecida, a promoção e a educação em saúde, a prevenção e o retardamento de doenças e fragilidades, a manutenção da independência e da autonomia são iniciativas que devem ser ampliadas. Só assim será possível assegurar mais qualidade de vida aos idosos e bem-estar à população como um todo. 

O modelo que sugerimos propõe uma reorganização do cuidado de modo a combinar eficácia e menor custo. Significa, em síntese, fazer o necessário de forma correta, com foco no elemento mais importante de todo processo: o próprio paciente.

Não é somente o Brasil que está preocupado com a aplicação de um modelo de cuidado mais resolutivo e com melhor relação custo-efetividade. O mundo inteiro vem debatendo o tema, reconhecendo a necessidade de mudanças e propondo melhorias.

O que era antes privilégio de poucos – chegar à velhice – passou a ser a norma, mesmo nos países mais pobres. Essa conquista do século 20 transformou-se, no entanto, em um grande desafio para o presente século. O envelhecimento da população é uma aspiração natural de qualquer sociedade, mas não basta por si só. Viver mais é importante desde que se consiga agregar qualidade aos anos adicionais de vida.

O idoso, por ter maior vulnerabilidade e maior utilização do sistema de saúde, é um dos mais prejudicados pelo atual modelo assistencial. Como cita Don Berwick, do Institute for Healthcare Improvement (IHI), “todo sistema de saúde é perfeitamente desenhado para atingir os resultados que se atinge”. Nosso sistema de saúde conseguiu fazer transição demográfica (envelhecemos), transição epidemiológica (temos agora tripla carga de doenças), transição nutricional (saímos da desnutrição para a obesidade), mas não conseguimos fazer a tão necessária transição nas nossas instituições de saúde, que permanecem organizadas para tratar doenças agudas, infecciosas. 

Estamos precisando nos organizar para cuidar das pessoas, num sistema de saúde que até agora focou em curar pacientes. Isso fará grande diferença neste momento de envelhecimento populacional. 

Propomos modelos que sejam centrados no cliente, fornecendo cuidados contínuos e coordenados e considerando suas necessidades. Um maior conhecimento da história do paciente pelos profissionais de saúde leva a melhores resultados. É assim que funcionam os modelos contemporâneos e resolutivos de cuidados, defendemos uma lógica que priorize intervenções de baixa intensidade e monitoramento constante, com um médico responsável por uma carteira de clientes e acompanhando cada um durante as diferentes configurações de cuidados. Esse modelo propõe tratamento médico integrado, fluxo de ações educativas, promoção da saúde, prevenção de doenças evitáveis, postergação de doença, intervenção de cuidados precoces e reabilitação. 

Acreditamos que é possível envelhecer com saúde e qualidade de vida, desde que todos os atores do setor se percebam responsáveis pelas mudanças necessárias e se permitam inovar.

Lembramos sempre que, muitas vezes, inovar significa resgatar cuidados e valores mais simples, que se perderam dentro do nosso sistema de saúde. 

Já perdemos muito tempo; precisamos agora iniciar a construção dessa nova forma de cuidar dos idosos.

Não podemos mais esperar. É hora de mudar e inovar! 

* Médico, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade - Uerj



Tags: artigo, idosos, jb, qualidade de vida, saúde

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