Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Soco no estômago

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO*

O assunto de hoje é pesado. Mas necessário e urgente. Precisamos falar sobre a opressão que leva à própria morte mulheres e meninas. A opressão que empurra precipício abaixo. Giana, 16 anos. Julia, 17. Karina, 15. Causa da morte das três: suicídio. Motivo: vazamento de fotos íntimas na internet. Virginia Woolf, Sylvia Plath, Ana Cristina Cesar. Três escritoras que encerraram a própria vida em momentos e países diferentes. O motivo, entretanto, assim como as adolescentes, foi o mesmo – cada uma com suas dores peculiares: depressão. 

Virginia se afogou na Inglaterra, no início da década de 40, depois de escrever romances, poesias e ensaios em que gritava sua revolta por ter sido privada de uma educação de qualidade e de uma formação sólida – que mais tarde buscou por conta própria – pelo simples fato de ter nascido mulher. Em 1963, Sylvia tomou comprimidos e ligou o gás do fogão da casa onde morava, nos Estados Unidos – não sem antes trancar os dois filhos no quarto com a janela aberta, para que a morte não os capturasse ainda crianças. Escreveu poesias, um polêmico diário – que seria confiscado pelo marido, descrito por ela como abusivo e opressor, e só liberado para publicação após passar pela censura dele, que ficou com todos os direitos sobre a obra de Sylvia – e um único romance, com viés autobiográfico, que seria entendido mais tarde como indício do suicídio da autora. “A redoma de vidro” foi publicado semanas antes de sua trágica morte. Ana Cristina Cesar – que, ironicamente, ou não, traduziu poemas de Sylvia Plath, entre outras escritoras – jogou-se da janela do apartamento em que morava com os pais, aqui no Brasil, no Rio de Janeiro. O ano era 1983 e Ana C. deixava uma gama rica de poemas classificados de “marginais”, como ficou conhecida a produção de escritores do fim dos anos 70 que não seguiam nenhuma escola literária. Viveu “em estado de emergência”, conforme descreveu uma das estudiosas de sua vida e obra, a argentina Florência Garramuño.

A dor que levou essas mulheres à morte só pôde ser sentida por cada uma delas, mas o desespero e o inconformismo ainda gritam nas páginas que deixaram escritas. Assim como o pânico que tomou conta de cada uma das adolescentes citadas no início deste artigo não pode ser sequer imaginado por quem acompanhou as notícias aqui do lado de fora. Mas o resultado da atitude machista e opressora – o vazamento das fotos íntimas na internet – chocou todos e todas. Histórias diferentes, momentos distintos, o mesmo final trágico, o mesmo soco no estômago e uma dúvida: essas mortes poderiam ter sido evitadas se o mundo fosse um lugar mais aprazível aos sentimentos e ao desespero dessas mulheres? Gianas, Julias, Karinas, Sylvias, Virginias teriam se salvado do afogamento, dos venenos, do gás, do enforcamento se os julgamentos não fossem tão pesados para as mulheres e se a sociedade não fosse tão machista e cruel? Perguntas que – de novo – têm o peso de um soco no estômago. E um sabor amargo, difícil de engolir, de digerir e de sair das bocas na forma de respostas. 

E enquanto as respostas não vêm, ficamos com os números: no Brasil, 69% das tentativas de suicídio ocorrem entre as mulheres. Embora os índices se invertam quando são contabilizadas as mortes consumadas por suicídio – 79% ocorrem entre homens – um dado serve de alerta: grande parte das mulheres que acabam com a própria vida já tinham tentado se matar outras vezes. Ou seja: a mulher oprimida, vítima da sociedade machista, tenta, tenta, tenta e uma hora consegue. Vale então a atenção aos sinais. Vale a sociedade ter mais empatia, mais acolhimento, menos julgamento. Só assim levaremos menos socos no estômago. 

* Jornalista



Tags: artigo, depressão, machismo, mulheres, sociedade, suicídio

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