Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Por uma nova cidadania ativa

Jornal do Brasil CARLOS FERNANDO GALVÃO *

Diz o cancioneiro popular, nas palavras do cantor Seu Jorge, que felicidade é estar e viver na sua companhia. Temos conseguido essa proeza? A sublimação das asperezas da vida, notadamente da luta pela sobrevivência diária em cidades como o Rio de Janeiro, é um alento para todos nós. A melodia da vida em sociedade tem sido obnubilada pelas agruras de uma realidade que nos deixa entristecidos e amedrontados pela frieza de fatos que nos têm sido adversos e as palavras que, não raro, soltamos a esmo, como forma de aliviar as tensões, se perdem ao vento, como folhas secas que, esmaecidas e ressequidas, flanam ao sabor dos acontecimentos que não controlamos.

O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) dizia que tudo o que não puder contar como fez, não faça. A filosofia moral de Kant nos oferece o Imperativo Hipotético, que é uma “ação-meio” para alcançarmos um fim desejado, como, por exemplo, quando nossos pais nos diziam para estudarmos, porque só assim tiraríamos boas notas. Por outro lado, também nos dá o Imperativo Categórico, cuja ação é, em si mesma, um fim; realizamos, nessa perspectiva, um ato bom, justo e correto, o que pressupõe a existência de fins absolutos. Não vamos, aqui, nos ater aos fins divinos; deixemos esses para a teologia. Fiquemos, pois, com os fins absolutos sociais, ainda que dependentes da interpretação de cada um e de todos nós. 

Tenho escrito livros, monografias e artigos, científicos ou não, alguns no nosso redivivo JORNAL DO BRASIL, e em quase todos, como um livre pensador social que procuro ser, tento fazer uma análise o mais precisa, coerente e otimista possível da temática abordada. Creio estar sendo bem-sucedido no que toca a precisão analítica e a coerência ideológica e argumentativa; já no tocante ao otimismo... anda difícil. Contudo, no meio do pântano também nascem rosas. 

O que fazer, então? Deixar-me conduzir pelo medo ou pela agonia e ser mais um alarmista a trombetear a chegada dos quatro Cavaleiros do Apocalipse (guerra, fome, peste e morte, segundo escritos sagrados ocidentais)? Embora a realidade quase o demande, fazer apenas isso seria, no meu entender, resignar-me à entrega vã e contraproducente da omissão covarde e/ou cômoda que piora as coisas e que só interessa aos cretinos e safados que ganham, real e simbolicamente, quando as pessoas de bem se omitem. Isso não farei. Não faça isso, você! O sonho humano, de que nos falou Jorge Amado, se realiza nas pequenas realidades de cada um e vice-versa. São contrapartes necessárias e não entes contraditórios.

Não podemos permitir que, neste ano eleitoral, propostas radicais de racismo, misoginia, homofobia e tendentes à virulência discursiva e operacional, saiam vitoriosas. Igualmente, não podemos permitir que discursos pseudocientíficos, que pregam a liberdade de ação mercadológica para uns poucos e a submissão disfarçada de quase escravidão para quase todos, continuem a nos engabelar. Mercado existe, desde antes do capitalismo, e é bom, mas deve atender às pessoas, e não o contrário. Desigualdades sociais são construções históricas e geográficas, não sendo, modo algum, uma “condição natural” da vida. 

O Imperativo Hipotético, no tocante à uma nova Cidadania Ativa, pode ser enunciado do seguinte modo: sinta o outro como um semelhante e não como um objeto; pense em soluções democráticas e que a todos beneficie e não apenas aos grandes grupos econômicos; aja com vigor renovado e ciente de que o soberano é o povo como um todo e não apenas suas classes dirigentes, não raro, predatórias e dissimuladas (com as exceções de praxe), beneficiárias quase exclusivas das benesses sociais. Não se omita: insista, persista e não desista, outro mundo é difícil de ser construído, mas é possível.

Já o Imperativo Categórico, para esta mesma Cidadania Ativa, pode ser assim expresso: em termos sociais e políticos, não há fim maior do que o bem-estar de todos. Essa máxima, que deveria estar nas mentes e nos corações de cada um de nós, é, no meu entender, uma verdade universal e absoluta, muito embora, na prática, tal ideia seja sistematicamente sabotada por quem não quer democracia, senão para seu próprio benefício. Não quer ser enxovalhado e explorado? Não enxovalhe e não explore o semelhante. Não quer ser desrespeitado e violentado existencialmente? Não desrespeite e não violente o outro. Quer viver em paz, com amor, sem egoísmos e de modo solidário e generoso? Permita que o semelhante viva do mesmo jeito. Era isso o que Gandhi dizia quando mencionava que o conhecimento só serve para tornar melhor a vida do Homem, mas que de pouco adianta a mente estar cheia se o coração está vazio. 

Revolução rima com ação (coletiva e democrática) e com transformação (de todos, política e existencialmente). Façamos a nossa! O tempo de meias ideias e ações cosméticas já passou!

* Geógrafo e pós-doutor em Geografia Humana



Tags: artigo, cidadania, imperativo categorico, imperativo hipotetico, jb, jornal do brasil

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