Jornal do Brasil

Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

A importância do humor

Jornal do Brasil RAQUEL STIVELMAN*

Pois é, a Copa está por acabar, e a vida continua. Como Geraldo Vandré declarou, ao perder o primeiro lugar em um distante festival de música: “Nem tudo são festivais de música neste mundo”. E por consequência, nem tudo na vida é futebol! Se bem que neste específico momento sombrio que estamos atravessando, para nós brasileiros, este hexacampeonato teria sido de suma importância, ainda que passageira, mesmo porque, segundo um antigo provérbio mineiro, “Os tempos estão tão sombrios que nem a vaca reconhece o bezerro”. 

Talvez seja de bom alvitre focarmos a nossa atenção em um assunto agradável, reconfortante, ou seja, vamos deter nossa atenção na veia humorística que muitos povos pelo mundo afora possuem, cada qual preservando suas características predominantes e peculiares. 

No dia 19 de janeiro de 2006 foi publicado um artigo meu, na página A10 do JORNAL DO BRASIL, cujo título era: “Humor: assunto sério”. Tratemos de relembrar algumas passagens interessantes. Eu iniciei o referido artigo mencionando o escritor satírico Nicolau Gogol que escreveu: “Mesmo aqueles mais destemidos ainda temem uma gargalhada”. Mais adiante cito George Orwell que afirmou: “Cada anedota é uma minúscula revolução”. Nada mais verdadeiro! 

O humor tem um apelo maior para a inteligência, instaurando muitas vezes por suas manifestações concisas e sintéticas, um desafio para a capacidade da plena compreensão dos seus eventuais consumidores. 

Cada povo tem a sua forma peculiar e característica de humor que revela muito dos seus traços peculiares, tanto positivos quanto negativos. O humor carioca, por exemplo, é malicioso, oportuno, inteligente, picaresco. Ele é extremamente sensível em captar o sentimento prevalente que gerou essa manifestação humorística. São poucos os acontecimentos mesmo tristes ou de extrema seriedade que não sejam seguidos por aquela piada, esperta, crítica que provoca sorrisos ou gargalhadas desopiladoras. Uma boa amiga me contou, ontem, a grande vantagem da Bélgica por ter feito retornar milhares de brasileiros ao trabalho, à vida normal, mais depressa de que qualquer decreto presidencial. 

O povo judeu tem um humor cáustico, agridoce e que se autoavalia e se autocrítica constantemente. O humor judeu revela grandes verdades deste povo milenar. Como a maioria dos povos, os judeus lidam com as suas ansiedades e os seus medos rindo deles. Os temas recorrentes em muitas piadas judaicas são encontrados em inúmeras manifestações humorísticas de outros países. 

Uma forma mais recente de humor assume que judeus modernos são sofisticados em relação à psicologia. Cada judeu está fazendo terapia, acabou o seu processo analítico, está prestes a iniciar uma nova linha de tratamento psicoanalítico ou é um terapeuta. 

Woody Allen revelou recentemente que está em tratamento psicoanalítico por mais de vinte anos. Segue uma anedota bem ilustrativa sobre este tema: Goldstein estava em análise há dez anos. Finalmente, o analista lhe diz que todos os objetivos de cura tinham sido alcançados e que ele poderia considerar o tratamento encerrado. Em resumo, estava lhe dando alta. Goldstein ficou petrificado. “Doutor”, ele disse, “Eu fiquei muito dependente dos nossos encontros. Eu não posso parar”. O psicanalista dá a Goldstein o número do telefone de sua casa e diz: “Se alguma vez você precisar de mim, pode me telefonar a qualquer hora”. 

Decorridas duas semanas, o telefone toca na casa do médico: “Doutor, eu acabo de ter um pesadelo terrível. Eu sonhei que o senhor era a minha mãe e eu acordei todo suado”. “E o que foi que você fez” pergunta o médico. Resposta: “Eu analisei o sonho com a maneira que o senhor me ensinou na análise. Não podia mais dormir e desci para a cozinha para tomar o meu café da manhã”. “E o que você comeu”, pergunta o analista. Resposta: “Somente uma xícara de café preto”. E o analista, mais do que depressa retruca: “Você chama isso de café da manhã?”. Típica reação de uma mãe judia que, por vezes, superalimenta seus rebentos. Bravos! O terapeuta incorporou a célebre “idische mame” (mãe judia). Pano rápido! 

Quanto à sagacidade e à esperteza do judeu, existe a piada que se segue: um velho judeu está viajando sozinho na cabine de um trem, na Rússia. Um oficial do exército de tsar entra na cabine e se acomoda. Durante um certo tempo os dois permanecem em silêncio. 

Subitamente, o oficial agarra o judeu pela lapela e pergunta: “Me diga, por que vocês, judeus, são tão mais inteligentes do que qualquer outra pessoa?”. O velho judeu ficou quieto por alguns instantes e em seguida respondeu: “É por causa do arenque que comemos”. A viagem recomeçou. Logo o judeu retirou um pedaço de arenque e começou a comer. O oficial lhe perguntou: “Quantos pedaços de arenque você ainda tem?”. “Uma dúzia”, foi a resposta do velho judeu. Nova pergunta do oficial russo: “Quanto você quer por eles?”. Resposta imediata: “Vinte rublos”. O oficial conta o dinheiro e dá ao velho judeu que lhe entrega os arenques. O oficial come um pedaço, para e exclama: “Isso é ridículo! Em Moscou eu poderia ter comprado todo este arenque por alguns copeques”. Resposta apressada do velho judeu: “Você vê”, diz o judeu. “Já está fazendo efeito”. 

Cortina ultrarrápida! Rir faz bem! Alivia, desanuvia e mitiga preocupações. Ainda bem! 

* Mestre em Educação pela UFRJ



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