Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Mexicanização e racismo

Jornal do Brasil FRANSÉRGIO GOULART*

Tanto Brasil como México se construíram como Nações Estados, a partir do escravagismo, que é parte da construção do atual sistema de dominação que conhecemos como racismo.

Oficialmente, a Baixada Fluminense é composta por 13 municípios: Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Queimados, Mesquita, Magé, Guapimirim, Paracambi, Japeri, Itaguaí e Seropédica. Queremos apontar com este artigo a reflexão de que estamos vivenciando um processo de mexicanização da violência na Baixada.

Vale lembrar que a Baixada tem um marco de modelo de violência que são as chacinas, iniciadas na região com os esquadrões da morte, que foram gestados no início da ditadura civil-militar de 1964. É nesse contexto que uma nova dinâmica organizativa se adiciona, potencializando a violência, que é a parceria dos grupos de milícias, do Estado (forças policiais) com determinadas facções do comércio de drogas. 

Na Baixada, a taxa de letalidade violenta é o dobro da taxa da capital. Assim, enquanto na cidade do Rio a taxa de letalidade violenta (crimes contra a vida,homicídios dolosos, mortes decorrentes de intervenção à oposição policial, latrocínio e lesão corporal seguida de morte) está em torno de 40 para cada 100 mil habitantes, aqui são cerca de 80 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo dados do Instituto de Segurança Pública. Nesse crescimento da violência, a Baixada Fluminense fica a cada dia mais, parecida com o México. São várias as similaridades que hoje são identificadas: chacinas, massacres em presídios, atuação de milícias, homicídios de candidatos a cargos eletivos em eleições e desaparecimentos forçados. Desde 2015, 14 candidatos e políticos foram mortos, segundo a Polícia Civil, seis desses crimes foram causados por disputa entre milicianos. Outros dois, por grupos de extermínio; quatro mortes foram ações de traficantes. Só dois dos casos não teriam nenhuma ligação com a atuação política das vítimas. 

Na última campanha eleitoral no México, tivemos o processo marcado por diversos casos de violência e homicídios, com cerca de 122 candidatos e pré-candidatos mortos, dados do Instituto Nacional Eleitoral (INE) até o dia 20 de junho de 2018. Outro dado dessa similaridade é a militarização levada ao extremo por gestores públicos. Dados da Secretaria de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro nos dizem que, nos últimos 10 anos, o orçamento da segurança pública do Rio, atualmente sob intervenção federal militar, cresceu 136%. 

No México segundo o Instituto para Economia e Paz do México, o montante aplicado em segurança pública foi de US$ 29 bilhões, somente em 2017.

As semelhanças não param, no México, como na Baixada Fluminense, desaparecimentos forçados fazem parte dessa história. Em 2014 tivemos o caso mundialmente conhecido dos 43 estudantes desaparecidos da escola rural de Ayotzinapa, políticos e militares são os principais suspeitos.

Este ano, como aconteceu no México, estamos em um processo de eleições para Executivo e Legislativo. Na Baixada Fluminense, além dos partidos políticos, os meios de comunicação e outros atores têm peso decisivo, entre eles estão os grupos armados da Baixada (milícia, tráfico e polícias). Não há dúvidas de que os grupos que estabelecem poder nos territórios das comunidades da Baixada também intervêm nas campanhas eleitorais, financiando, promovendo ou censurando candidatos, assim como gerando violência.

Ao povo da Baixada Fluminense, caberá eleger pessoas que possam trazer uma perspectiva de segurança pública menos letal, construindo um projeto político autônomo que tenha como princípios a autogestão, o fim do racismo, dos privilégios de uma elite, do machismo e todas as formas de opressão.

* Historiador, especialista em Políticas e Programas de Direitos Humanos e Juventudes; apoiador da Rede de Mães e Familiares Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense



Tags: artigo, baixada fluminense, direitos humanos, eleições, méxico

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