Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Jara e Herzog: dois crimes, duas sentenças

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

Leva tempo para que os crimes praticados por ditaduras sejam reconhecidos. Mais tempo ainda para que seus responsáveis sejam identificados e punidos. No caso brasileiro, integrante dos regimes ditatoriais do Cone Sul do século passado, ainda teremos que esperar mais porque os torturadores foram anistiados, e o Estado montou uma farsa para esconder seus crimes, que continuam encobertos e impunes. Na semana que passou, decorridos 45 anos, dois desses crimes tiveram sentenças. Um país avançou nas investigações e condenou nove militares reformados a 15 anos de prisão. No outro, o Estado é que foi condenado por uma Corte internacional por proteger os autores e acobertar um crime de lesa humanidade.

Victor Jara e Vladimir Herzog, os que tiveram suas vidas roubadas, não se conheceram. Mas poderiam ter se encontrado num festival de música ou de cinema em Cuba ou outro país qualquer da América. Eram jovens, tinham sonhos e uma carreira profissional de sucesso. Nascido na antiga Iugoslávia, filho de pais que fugiram do nazismo na Europa, Vlado estudou Filosofia na USP, trabalhou no Estadão, na revista Visão, na TV Excelsior e na BBC de Londres. Jara era diretor de teatro, pesquisador musical, poeta e cantor, autor da canção “El derecho a vivir em paz”, que lhe foi negado. 

Foram assassinados num intervalo de dois anos. O chileno, em setembro de 1973, com 41anos, deixou quatro filhos. O brasileiro com 38 anos, em outubro de 1975, deixou dois filhos. Em torno de seus nomes e da violência que sofreram, a história teceu uma mitologia, mas trata-se apenas de dois homens identificados com os movimentos de rebeldia e liberdade que contaminaram os jovens de seu tempo. Dois homens ligados por uma percepção de que vida não é pequena.

Não foram guerrilheiros, não pegaram em armas, não exerceram militância política organizada, o que poderia torná-los alvos da repressão ditatorial. O músico Jara frequentava o círculo de amigos de Salvador Allende, o presidente que se matou com um tiro de fuzil na cabeça depois de deposto por Pinochet. E o jornalista Herzog mantinha discretas relações com um grupo de jornalistas do Partido Comunista, o Partidão. Nada que ameaçasse as bases políticas e militares da ditadura.

Victor Jara foi preso em 12 de setembro de 1973, um dia após o golpe militar que derrubou Allende. Levado para o Estádio Nacional em Santiago, transformado num centro de detenção e tortura, foi mutilado e assassinado. Seu corpo foi encontrado no dia 16 nas imediações do cemitério Metropolitano, com 44 perfurações de bala, queimaduras e os dedos mutilados. A Justiça do Chile finalmente concluiu o famoso caso do cantor, condenando os nove integrantes do Exército por seu assassinato. 

O jornalista Vladimir Herzog, então diretor da TV Cultura, apresentou-se na manhã do dia 25 de outubro de 1975 diante do portão do DOI-Codi de São Paulo, à Rua Thomas Coelho 1.030, no desenvolvimento da chamada operação “Jacarta”. Foi interrogado, torturado e assassinado. Uma grande farsa foi montada para apresentar a versão do suicídio, com a foto de Vlado dependurado numa janela da cela, com um cinto amarrado no pescoço, na qual se vê seus pés apoiados no chão. Apesar da censura, sua morte causou grande impacto no país e teve ampla repercussão no exterior.

A imagem com a farsa grotesca foi mantida durante anos. Nos quartéis que serviram de cárcere, os presos só ficavam com a roupa do corpo, que na sala de tortura era retirada. O ritual exigia nudez. Em fevereiro de 1970, quando entrei na sucursal Rio do DOI-Codi, na Rua Barão de Mesquita, Tijuca, o cabo Gil, em sua função de porteiro da noite, me passou em minuciosa revista. Reteve minha carteira, relógio, cigarros, cinto e até os sapatos. E assim procedia com todos os recém-chegados àquela casa de horrores. Era norma disciplinar da instituição.

A sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que condenou o Estado brasileiro, determina que sejam reiniciadas diligências e investigações para concluir o processo penal, com a devida identificação e punição dos responsáveis pela tortura e assassinato de Vladimir Herzog. Ao mesmo tempo, pede a adoção de medidas para declaração de imprescritibilidade dos crimes de lesa humanidade. Em suma, para que a lei de anistia seja revista. Sem pressão da opinião pública, a sentença da CIDH será depositada nos arquivos mortos da ditadura. Até hoje, nenhum militar responsável por crimes dessa natureza foi punido.

* Jornalista e escritor



Tags: artigo, crimes, democracia, direitos humanos, ditadura militar

Compartilhe: