Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Juventude e o seu labirinto

Jornal do Brasil VAGNER GOMES DE SOUZA*

Muitos costumam dizer que a juventude é o futuro do Brasil. Além disso, este ano de 2018 poderá ser um ano decisivo para o futuro da política brasileira, se permitir um debate programático sobre as eleições gerais que se avizinham. Entretanto, nesses dias ainda de Copa do Mundo se aprofunda uma sensação de que as reivindicações por uma ampliação política do Estado brasileiro não serão encaminhadas. A política brasileira, mais uma vez, faltará ao encontro de uma nova geração nascida a partir do Plano Real (1994).

O desemprego é muito profundo nesse segmento da sociedade e a militância política acaba se tornando muito mais como uma forma de profissionalização nas máquinas partidárias. As juventudes partidárias ou se formam com um “carimbo” cartorial ou consolidam a formação de militantes anacrônicos para os jovens em relação ao cotidiano nacional. Os partidos políticos ergueram grandes muros ao seu redor sem uma ponte política com essa juventude pós-Plano Real.

Os ventos das manifestações de junho de 2013 foram incapazes de abrir novos horizontes para a participação da juventude na política. Houve um erro de avaliação na esquerda brasileira, que temeu disputar a hegemonia das ruas. Não houve a necessária “oxigenação” das lideranças políticas. As manifestações levantaram bandeiras favoráveis ao aprofundamento dos direitos consagrados na Constituição de 1988, porém a polarização política PSDB x PT em 2014 serviu como mais um momento “termidoriano” de nossa política nacional. Na sequência, as forças conservadoras emergiram para reforçar a oligarquização da política e frear o processo de distribuição de renda.

A forte crise da qualidade da educação brasileira agrava esse vazio na política brasileira para atrair a juventude. O ensino ficou massificado, porém a qualidade e desempenho escolar estão distantes das metas estabelecidas. O analfabetismo funcional se alonga nos ciclos escolares reforçando o “analfabetismo político”. Por outro lado, os movimentos estudantis não conseguem criar uma política unificada para toda a pluralidade juvenil que reconhecemos hoje nas salas de aula.

Consequentemente, a juventude entrou num labirinto político pela ausência de uma refundação do associativismo em nosso país. Estamos sob a ameaça da negação da política democrática, pois faltou ousadia para incorporar a juventude em 2013. A juventude perambula nesse processo de indignação contra o sistema político muito próximo das garras do “minotauro” do extremismo tanto à direita quanto à esquerda. Nesse caso, se faz necessário reencontrar a política de Frente como o “fio de Ariadne”.

Esse é o momento de reverter a tendência negativa quanto às perspectivas políticas do ano eleitoral para avançar na inclusão do jovem. Um programa reformista e democrático deve ter a participação da juventude no seu debate. Um programa que sensibilize a nova geração a combater o discurso da intolerância nas redes sociais, levantando a bandeira da fraternidade animada pelas forças democráticas. Essa é uma lição de democracia para a juventude a ser posta em prática enquanto há tempo para evitarmos o pior.

* Mestre em Sociologia e professor de História



Tags: artigo, crise, democracia, plano real, política

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