Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

A velocidade da mentira

Jornal do Brasil ANDRÉ L. MICELI*

Muitas vezes temos a sensação de que notícias falsas estão em todo lugar. E elas realmente estão. Na verdade, sempre estiveram. A diferença é que agora circulam com mais velocidade e possuem mais alcance. Tais notícias se espalham nas mídias sociais e recebem mais atenção do que a verdade, conforme parecem atestar todas as pesquisas que já se debruçaram sobre o tema.

Um estudo recente, publicado pelos pesquisadores Sinan Aral, Soroush Vosoughi e Deb Roy, analisou a difusão das histórias que mais repercutiram durante um ano. Foram analisadas notícias verdadeiras e falsas que se espalharam nas redes sociais. Os dados consideraram aproximadamente 126.000 cadeias ininterruptas de postagens e repostagens de origem comum, que envolveram histórias espalhadas por três milhões de pessoas por mais de quatro e meio milhões de vezes. Apesar de ainda ser cedo para se fazer considerações taxativas sobre o tema, algumas constatações sobre as fake news são perturbadoras.

É possível afirmar que elas se espalham com uma velocidade 5 a 6 vezes maior do que uma informação verdadeira. Aparentemente, a principal razão para essa discrepância é que as notícias falsas tendem a trazer novidades maiores e mais impressionantes do que as notícias verdadeiras, e isso faz com as pessoas estejam mais propensas a compartilhar esse tipo de informação. 

Ao contrário do que se pensava, não foram os bots – programas de computador que executam tarefas como se fossem humanos – que as espalharam. As fake news atraem a atenção humana e encorajam o compartilhamento, conferindo status aos participantes que as compartilham, pois os mesmos parecem mais bem informados ao contar notícias que integrantes de suas redes não conheciam. Na verdade, eles as descobriram. Foram pessoas reais que executaram a maior parte do trabalho.

O Congresso americano e o FBI estão investigando evidências de que russos e outros usuários estrangeiros inundaram deliberadamente as mídia sociais com relatórios e postagens que visavam enganar as pessoas sobre os candidatos políticos e que isso tenha sido importante para a vitória do republicano Donald Trump. Além de terem maior potencial de viralização, as fake news apresentaram mais poder de permanência nas redes sociais, cadeias de repostagens e atenção de leitura.

É possível afirmar que as fake news se comportam de maneira parecida para praticamente todos os assuntos. Em todas as categorias de informação – política, entretenimento, negócios e assim por diante –, as notícias falsas possuem um alcance significativamente mais amplo e se espalham mais rapidamente do que as verdadeiras. Elas são 70% mais propensas de serem compartilhadas, mesmo quando encontram pessoas com idades e características diferentes do indivíduo que inicia o processo. O que mais assusta é saber que os efeitos são ainda mais pronunciados quando se tratam de histórias políticas falsas do que para qualquer outro tipo de notícia.

Com o fim precoce de nossa participação na Copa do Mundo, entra em cena outro momento catalisador de nossa população: as eleições. Para acompanhar esse momento haverá, certamente, um número gigantesco de notícias falsas de todos os tipos. Em sua grande maioria manipulando a imagem de candidatos a fim de que eles denigram seus concorrentes e reforcem as intenções de voto em si mesmos. Essas notícias partirão de pessoas que irão trabalhar como guerrilha. Será um jogo sujo, do qual precisaremos nos proteger. 

Alguma noção de verdade é fundamental para o funcionamento adequado de quase todas as instituições em que o ser humano esteja envolvido. Discutir o tema, validar fontes, duvidar do que lê, trabalhar como um bom jornalista será uma tarefa de todos os cidadãos. Se permitirmos que o mundo seja consumido pelas notícias falsas, criaremos o ambiente perfeito para catástrofes, acima de tudo, éticas e morais.

* Professor e coordenador de MBA em Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas



Tags: artigo, copa do mundo, fake news, informação, redes sociais

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