Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

O Rio se salva com a volta da democracia

Jornal do Brasil EMIR SADER*

O Rio sempre esteve na vanguarda da luta democrática no Brasil. Quando se deu o golpe de 1964, esteve entre os poucos estados que elegeu um governador não automaticamente alinhado com o governo militar. No processo de redemocratização, o Rio foi o cenário das maiores manifestações que liquidaram a ditadura e introduziram a transição à democracia. Quando a democracia foi retornando ao país, o Rio foi um estado avançado na reconstrução do Estado de Direito, da educação popular, dos direitos sociais da sua população.  

O resgate econômico e social do Rio neste século esteve estreitamente associado às ações do governo federal, reativando a economia, injetando recursos diretamente e através da Petrobras, do BNDES, da reconstrução da indústria naval brasileira. Todos os retrocessos atuais têm igualmente a ver com a ruptura da democracia e com o ajuste fiscal imposto pelo atual governo federal. 

Os efeitos desse auste e da recessão que ele provoca sobre o Rio têm sido devastadores. O desmonte de grande quantidade de estruturas produtivas da área energética, o estancamento dos financiamentos do BNDES, o desmonte da indústria naval, colocam o Rio na pior crise econômica da sua história, com efeitos arrasadores no plano social, a começar pelos maiores índices de desemprego do país. 

Da mesma forma que o Rio foi privilegiado pelo governo anterior em termos de investimentos e políticas sociais, é  uma vítima privilegiada do governo instalado pelo golpe de 2016 e do ajuste e da recessão que esse governo coloca em prática. Candidatos a governar o Rio que estejam, de forma direta ou indireta, ligados a esse governo e a suas políticas econômicas, só representariam a continuação da tragédia que vive atualmente o estado. Poderão prometer recuperação econômica e outras coisas mais, porém se não renegam o governo ilegítimo surgido do golpe e que implementa políticas econômicas rejeitadas pelo povo brasileiro e pelo povo do Rio de Janeiro nas quatro últimas eleições presidenciais, estarão enganando os cariocas. 

O Rio de Janeiro é democrático, aberto, solidário, popular. O Rio tem uma vocação social, cultural, que precisa ser incentivada, implementada. O Rio só voltará a ser feliz se deixar de ser marcado pela violência, pelo genocídio de seus jovens negros. Se fizer com que sua música, sua arte, seu esporte voltem a ser sua marca essencial. Que as mulheres passem a ter papel essencial na sociedade carioca. Que os jovens não sejam mais discriminados e excluídos, mas passem a representar o futuro que queremos para o Rio. 

Há uma velha política e velhos políticos que têm que ser rejeitados, mesmo alguns que podem sugerir que seriam novidade, mas que nunca fizeram nada pelo Rio, mesmo tendo mandatos parlamentares. Têm eles o mesmo estilo da velha política nem dizem o que fariam pelo Rio, menos ainda com quem governariam. Pulam de partido a partido, aparentemente sem ideologia, mas reproduzem o pior da velha política: o clientelismo, negócios pessoais turvos, exploram imagem pública, às vezes esportiva, às vezes artística, mas reproduzem o pior da velha política e dos velhos políticos. 

As mulheres, os jovens, os negros, são os maiores ausentes da política brasileira e também da política do Rio. Deles depende a renovação da política do Rio. Sem eles, o Rio nunca será uma democracia social, cultural. 

A ação antidemocrática da oligarquia política tradicional diminuiu o tempo de campanha eleitoral, para dificultar os debates e para facilitar que os que já têm mandato possam se reeleger. O debate público só começará em 15 de agosto e irá até o começo de outubro. Muito pouco tempo, pelo que é necessário debater sobre o Rio. Pouco tempo para que caras novas se projetem para renovar o governo do Rio e suas representações parlamentares estadual e nacional.

Mas só a via democrática, nacional e estadual, pode resgatar o Rio da pior, mais prolongada e profunda crise da sua  história, paralela à crise brasileira. Só o retorno da democracia pode salvar o Brasil e salvar o Rio.

* Sociólogo



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