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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

A carta de Vargas e a carta de Lula

Jornal do Brasil SATURNINO BRAGA*

Pode-se retomar, a qualquer hora, a velha discussão sobre o papel dos indivíduos na História. Discutir, por exemplo, se a República Brasileira, implantada por Vargas, teria sido muito diferente, caso Prestes não tivesse ainda aderido ao marxismo e aceitasse o chamamento dos antigos companheiros da Coluna para chefiar a Revolução de 30.

Discussões como essa, meramente especulativas, têm sua importância, mas fogem ao escopo bem específico do que desejo dizer aqui. 

O ponto onde quero chegar é o reconhecimento de que a carta escrita por Getúlio Vargas, antes de se suicidar, realmente entrou para a História e produziu efeitos políticos concretos e importantes, como era propósito do velho presidente. 

Mobilizou de tal forma o sentimento dos brasileiros que deixou os principais golpistas de 1955 (Café Filho, a UDN e a turma do Brigadeiro Eduardo Gomes) sozinhos, atônitos, à bordo do cruzador Tamandaré, do Rio para Santos e de Santos para a Bahia, sem encontrar nenhum aceno de apoio: a ridícula cruzada de Pena Boto e Lacerda, com Carlos Luz.

A carta de Lula, publicada no JB no dia 29 de junho, com a denúncia do entreguismo deslavado e corrupto dos golpistas que derrubaram a presidenta Dilma, é igualmente destinada a fazer História. A mobilizar a consciência dos brasileiros para repelir, rechaçar, repudiar a canalhice e os canalhas desta venda espúria do patrimônio estatal, que constitui a base de sustentação da nossa economia.

“O projeto de lei aprovado na semana passada é um crime contra a pátria, que exige reação firme da sociedade, para ser detido no Senado, antes que seja tarde demais”, diz Lula.

Trata-se da permissão de venda para estrangeiros de cerca de 70% do petróleo do pré-sal descoberto pela Petrobras. Foi aprovado sorrateiramente, em regime de urgência, sem nenhuma discussão, enquanto o povo estava distraído com a Copa.

Essa é, verdadeiramente, a grande corrupção. A carta de Lula mostra: “A desvalorização do patrimônio da Petrobras, com a venda de empresas controladas, a perda de mercado no Brasil, a opção por se tornar mera exportadora de óleo cru, entre outras ações danosas de Parente, é, dezenas de vezes, maior do que os alegados R$ 6 bilhões que teriam sido desviados nos casos investigados pela Lava Jato”.

Vem-me à lembrança o discurso que fiz no Senado, em 1976, bem repercutido, distinguindo a pequena e a grande corrupção.

A grave denúncia da carta, entretanto, vem seguida da certeza de que os golpistas serão arrasados pelo pronunciamento popular das próximas eleições de outubro e de que “O Brasil voltará a ser dos brasileiros”.

São palavras que demonstram que Lula pode ser impedido de ser outra vez presidente, mas seguirá sendo o grande líder dos brasileiros para todo o mundo, com lugar muito elevado em nossa História, ombreando-se com o grande presidente Getúlio Vargas.

Com que aprazimento eu digo isso, com que felicidade eu acredito nisso, eu que vivi a política brasileira, votando em Getúlio Vargas em 1950, como primeira ação, e findei defendendo, no Senado, o mandato de Lula até o fim da minha carreira em 2006.

* Ex-senador e ex-prefeito do Rio; presidente do Centro Celso Furtado



Tags: artigo, eleições, política, presidência, senado

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