Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Não se pode mais admitir ação policial como a ocorrida na Maré

Jornal do Brasil Mário Augusto Jakobskind*

O que aconteceu na Favela da Maré não pode passar impune. Ou seja, a ação policial militar lá ocorrida é uma demonstração concreta da falência do setor de segurança no Rio de Janeiro e também da inutilidade da intervenção federal militar determinada pelo ocupante do governo, Michel Temer.

As imagens da violência, com um helicóptero atirando contra moradias naquele recanto da cidade, com tanques do Exército dando apoio, não podem passar impunes. Alguém precisa imediatamente ser responsabilizado pelas mortes ocorridas, inclusive do adolescente Marcus Vinícius da Silva, de 14 anos, assassinado com o uniforme escolar quando ia para o colégio. Não é atenuante o fato de as autoridades policiais afirmarem tão somente que os demais seis mortos eram vinculados ao narcotráfico.

É absolutamente necessário apurar quem comandou a operação militar na favela onde residem brasileiros e brasileiras pobres. Se nada for feito ficará ainda mais  evidente que as autoridades responsáveis pela segurança agem de forma criminosa nas favelas do Rio de Janeiro.

Não se pode permitir que diariamente ocorram mortes de crianças ou de quem quer que seja e que ninguém seja responsabilizado.

É o caso de se questionar o general Braga Neto,  nomeado para dirigir a intervenção federal  militar, o  que ele tem a dizer sobre o que aconteceu na Favela da Maré e em outras áreas pobres da cidade. Não é mais possível continuar o atual estado de coisas em que as chamadas “forças da ordem” ajam de forma totalmente irresponsável e sem serem cobradas pelo que vem acontecendo.

É preciso também terminar com a farsa representada pela desastrosa jogada de marketing que significa o  decreto de intervenção federal militar na área de segurança do Rio de Janeiro, que o ministro da Segurança Púbica, Raul Jungmann, já propôs prorrogar por mais tempo além de 31 de dezembro próximo.

Na realidade, a operação realizada no Complexo da Maré foi um marco limite pelo que vem sendo feito nas áreas pobres da cidade do Rio de Janeiro.

E se não houver pressão da sociedade civil para pôr fim à violência, matanças com helicópteros atirando nas casas dos moradores continuarão a ocorrer de forma impune, como se tudo o que aconteceu fosse normal, como querem as autoridades. E pais seguirão lamentando a morte dos filhos, em uma total irresponsabilidade,  que pode não ser considerada como tal pelos responsáveis pela violência e cujas imagens percorrem o mundo, para vergonha da população carioca e brasileira.

Chegou a hora de acabar de uma vez por todas com a intervenção federal militar e exigir que as autoridades responsáveis pelo setor de segurança encontrem outras formas de combater  a criminalidade, porque do modo como vem sendo feito até agora, a ação não é só absolutamente inoperante, como também agravou a situação. Esse tipo de combate exige no mínimo que o setor de inteligência seja acionado, e não continuar, a população, assistindo a truculências diárias como a da Maré.

* Jornalista e escritor



Tags: maré, morte, polícia, segurança, tiroteio, violência

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