Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Copa feminista

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO*

Um grupo de brasileiros com os valores em um passado não tão distante – quando “brincadeiras” vulgares e desrespeitosas com mulheres eram aceitas e consideradas normais – divulgou um vídeo na internet em que desferiam palavras de baixo calão para uma moça russa, que as repetia sem saber o significado do que dizia. A mulher loira, num clima de diversão de Copa do Mundo, se divertia com a galhofa ofensiva e nem sequer imaginava que estava cercada por bárbaros machistas. Como se essa agressão misógina não bastasse, uma outra turma de brasileiros postou nova gravação em que cercavam moças russas e as induziam a imitar frases de dar vergonha a qualquer pessoa com o mínimo de bom senso. Está tudo na internet para quem quiser ver – e morrer de nojo.

Mas como a quarta onda feminista segue alta, veloz e a cada dia mais forte, a reação de total repúdio aqui no Brasil foi imediata. E veio pela mesma via que deu visibilidade aos insultos: as redes sociais, que têm sido o principal instrumento da quarta onda do feminismo, contra aqueles que insistem em rebaixar, desrespeitar, ridicularizar e agredir as mulheres. Os dois vídeos foram compartilhados inúmeras vezes, acompanhados de textos de protesto. Resultado positivo: os envolvidos devem sofrer punições quando voltarem ao Brasil. Um deles é advogado e político pernambucano e pode ser alvo de sanções da OAB. Outro, um policial catarinense, deve enfrentar um processo administrativo da Polícia Militar. As mulheres – e homens feministas, sim, eles existem! – esperam que represálias semelhantes sejam aplicadas aos demais machistas que estampam os vídeos. 

Embora as “brincadeiras” sejam bárbaras, a reação imediata foi evoluída e otimista. O horizonte é ensolarado como o amarelo da camisa da seleção brasileira: machistas não passarão! Vitória feminista nessa partida em que as mulheres jogaram unidas, conquistaram rapidamente a bola, reagiram com destreza e chutaram direto para o gol, deixando o time machista acuado e derrotado.

Por falar em vitória feminista na Copa do Mundo, o Brasil teve a chance de ver o primeiro gol narrado por uma mulher na história dos mundiais. Foi de arrepiar a atuação da mineira Isabelly Morais no jogo entre Rússia e Arábia Saudita. O gol de estreia numa voz feminina foi justamente da... Rússia. O país que teve a nativa do início deste artigo ridicularizada por machistas brasileiros. Sim, o feminismo é mundial e tem ironias que lavam a alma. Como não poderia deixar de ser em tempos de quarta onda do feminismo, os gols que vieram da voz de uma mulher – e foram muitos, pois a partida entre Rússia e Arábia Saudita terminou em 5 a 1 para a seleção da casa – inundaram as redes sociais de forma vibrante. 

E não é apenas uma narradora que faz história na Copa da Rússia. A emissora de TV que escalou a jovem Isabelly levou mais duas mulheres para narrar jogos e colocou no ar uma mesa redonda 100% feminina. Antes da Copa, outra emissora já havia feito um concurso para escolher uma narradora de futebol e, essa semana, anunciou que a vencedora foi contratada. São passos ainda pequenos, ou, em liguagem futebolística, passes curtos na direção de uma posição equânime entre os gêneros na cobertura jornalística do esporte mais popular do Brasil. Mas até agora o placar feminista está positivo na Copa da Rússia. Teve falta violenta machista? Sim, em forma de vídeo repulsivo. Mas houve recuperação de bola e reação à altura, com chute forte, que deixou os adversários envergonhados, para dizer o mínimo. Todas e todos esperam que não haja um próximo lance, mas, se houver, o time do machismo vai pensar duas, três, dez vezes, antes de jogar tão baixo.

* Jornalista



Tags: copa da rússia, feminismo, futebol, machismo, respeito

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