Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

O fracasso do governo Temer

Jornal do Brasil José Luis Oreiro*

A recente turbulência no mercado de câmbio jogou a pá de cal nas expectativas de retomada do crescimento da economia brasileira em 2018. Os indicadores de atividade econômica já vinham apresentando performance muito abaixo do esperado pelo governo e pelos analistas econômicos, no primeiro quadrimestre de 2018. A greve dos caminhoneiros teve um impacto significativo na produção, tanto de bens agrícolas como industriais, devendo puxar para baixo o PIB do segundo trimestre; que poderá apresentar variação próxima de zero com respeito ao primeiro trimestre. Nesse cenário, já bastante desalentador, a desvalorização recente da taxa de câmbio produziu uma elevação da taxa de juros futura em função da expectativa de que o Bacen será obrigado a elevar a taxa Selic ainda em 2018, para coibir o repasse da desvalorização cambial para a taxa de inflação. A resultante de todos esses fatores foi uma redução expressiva da expectativa de crescimento da economia brasileira, para um patamar entre 1,2 a 1,5% em 2018. 

Se esse cenário se confirmar, então o governo Temer terá sido um completo fracasso. Com efeito, o impeachment da presidente Dilma Rouseff foi vendido para a sociedade brasileira como a única maneira de “pôr o país em ordem” e assim retomar o crescimento da economia. Os economistas liberais afirmavam que a substituição de Dilma por Temer iria restaurar a “confiança” dos empresários, levando assim a um aumento do investimento e ao fim da recessão. O Brasil poderia então retomar um crescimento em torno de 2,5% a.a, que poderia ser ampliado por uma série de reformas como, por exemplo, a PEC do Teto dos Gastos, a reforma trabalhista e a reforma da Previdência Social. Dessas três, o governo Temer emplacou as duas primeiras: o teto dos gastos, aprovado em 2016; e a reforma trabalhista, em 2017.

Não podemos deixar de fora das “reformas” do governo Temer a mudança ocorrida na atuação do BNDES com a substituição da TJLP pela TLP e a expressiva redução dos desembolsos do banco, o que restituiu ao Tesouro Nacional praticamente todos os empréstimos recebidos no período 2008-2014. Em suma, Temer e seu “dream team” da área econômica seguiu à risca o receituário liberal e desmontou a famigerada “nova matriz macroeconômica” da presidente Dilma. 

Quais os resultados dessa “guinada” na condução da política econômica? A economia saiu da recessão em 2017, mas a velocidade de recuperação da atividade econômica é o mais lento entre todas as recessões que o Brasil experimentou desde a década de 1980. O hiato do produto ainda se encontra em torno de 6% segundo estimativas do Instituição Fiscal Independente; e o desemprego persiste em torno de 13%. A inflação encontra-se abaixo do piso do regime de metas há 11 meses, graças à forte desaceleração da inflação de serviços, o que mostra a debilidade do nível de atividade econômica e do mercado de trabalho. Mantido o atual ritmo, o Brasil deverá recuperar o PIB de 2014 por volta de 2020 ou 2021. 

Os economistas liberais certamente irão dizer que a razão do fracasso do governo Temer foi que não se realizaram todas as reformas necessárias, ficou faltando a da Previdência. Nessa linha de raciocínio, os economistas liberais terão que admitir que todas as reformas feitas não tinham utilidade alguma; e a única que era realmente necessária foi a que eles mesmos sugeriram que fosse deixada por último. O erro terá sido deles, em vez de ser um efeito retardado da nova matriz macroeconômica. 

Existe outra interpretação para esse fracasso. A política macroeconômica do governo Temer, continuando o modelo do segundo mandato de Dilma, foi caracterizada pelo que o economista Braulio Borges denominou de “contracionismo excessivo”.  Entre 2015 e 2016 houve a ocorrência simultânea de uma política fiscal, monetária e parafiscal contracionistas. Com efeito, a política macroeconômica produziu uma forte elevação da Selic e uma redução expressiva dos investimento da União e das estatais; ao mesmo tempo em que o BNDES reduzia os seus desembolsos e aumentava o custo de suas operações de crédito. Um colapso da atividade econômica que só começou a arrefecer quando a política monetária começou a ser afrouxada, no fim de 2016 e após a liberação dos saldos inativos das contas do FGTS em 2017. 

Se Temer não tivesse dado ouvidos aos economistas liberais, seu governo poderia ter sido melhor em matéria econômica. Esperemos que o próximo presidente da República não cometa o mesmo erro.

* Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília



Tags: bndes, economia, inflação, liberalismo, pib

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