Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Todos os gatos são pardos na eleição do Rio

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS *

O Rio de Janeiro prepara-se para enfrentar uma eleição singular e imprevisível, em meio a uma situação de caos político, social e econômico. O estado faliu e foi colocado sob intervenção militar. Políticos estão presos, a corrupção atingiu níveis escandalosos. Noventa dias após a execução da vereadora Marielle Franco, seus assassinos não foram identificados. A violência e as mortes diárias transformaram as ruas da cidade num teatro de guerra civil a céu aberto. Enquanto isso, os políticos continuam agarrados ao poder e nada menos do que dez pré-candidatos já se apresentaram para disputar a eleição para governador em outubro.

São candidatos bizarros, alguns manjados, perdidos em meio a uma algaravia de siglas que nenhum eleitor é capaz de decifrar, compondo um quadro sombrio e assustador. A menos de quatro meses do primeiro turno da eleição para governador do Rio de Janeiro, os dez pré-candidatos navegam nas redes da internet distantes dos eleitores. Um número tão elevado que evidencia o grau de decomposição e oportunismo da política estadual, dominada por máfias e grupos familiares. 

Principal responsável pela catástrofe, o MDB do ex-governador Sérgio Cabral e de seu principal dirigente, deputado licenciado Jorge Picciani, ambos encarcerados, retirou-se de cena sem fazer uma autocrítica. Não vai apresentar candidato. O governador Pezão tornou-se um zumbi, tal qual o presidente Temer. Nos demais partidos, a mistura de siglas e candidatos, em sua maioria desqualificados e desconhecidos, compõe um saco de gatos pardos, onde o eleitor teme enfiar a mão para não ser mordido ou roubado. 

Cariocas não gostam de dias nublados, diz a letra da canção de Adriana Calcanhotto. Cariocas são bacanas, sacanas, também não gostam de sinal fechado. Mas agora se veem diante do vazio e de um desastre de grandes proporções. Dos candidatos que aspiram chegar ao Palácio Guanabara, talvez o mais conhecido seja o ex-governador Anthony Garotinho, que agora se apresenta pelo PRP. Preso três vezes em decorrência de processos na Justiça Eleitoral, Garotinho disse, em sabatina promovida pela “Folha de S.Paulo”, que o Exército terá um papel fundamental na segurança do Rio. Defendeu um fundo federal de ajuda financeira permanente para resolver as contas públicas. 

Entre os novos, está o ex-juiz federal Wilson Witzel, do PSC, que promete acabar com as UPPs e extinguir a Secretaria de Segurança. Negocia o apoio do PSL, de Jair Bolsonaro. O craque Romário é o virtual candidato do Podemos, o que quer que isso signifique. Negocia alianças e ainda não entrou em campo. O ex-prefeito Eduardo Paes, que deixou o arruinado MDB para se filiar ao DEM de Rodrigo Maia, ainda não oficializou seu nome. Tem chances de favoritismo, mas reúne todas as condições de ser o alvo principal de seus oponentes. O deputado federal Índio da Costa (PSD), ex-secretário do prefeito Marcelo Crivella, acusa Paes de ter viabilizado o esquema de corrupção comandado por Cabral. Para ele, o acordo de recuperação fiscal assinado com o governo federal é uma “brincadeira”.

Figuram, ainda, na extensa lista de aspirantes, o deputado Pedro Fernandes (PDT) e o antropólogo Rubem César Fernandes (PPS), aliado do tucano Geraldo Alckmin no plano federal. Um noviço na política partidária, Rubem César é fundador da ONG Viva Rio. Em sua entrevista à “Folha”, disse que a sociedade viveu um momento de cegueira, ele incluído, nas duas administrações de Sérgio Cabral. 

A esquerda está sem rumos, em meio às habituais divergências. O PCdoB indicou o vereador de Niterói Leonardo Giordano. Com a desistência do ex-ministro Celso Amorim, o PT ainda busca um nome. Seu candidato de maior projeção seria o deputado Wadih Damous, ex-presidente da OAB-RJ e da Comissão Estadual da Verdade. Damous preferiu disputar a reeleição para deputado federal, e o partido deve lançar a escritora Márcia Tiburi, figura anônima no Rio. O vereador Tarcísio Motta será o candidato do PSOL, numa campanha que terá a imagem e as bandeiras da vereadora Marielle Franco como sua maior sustentação. 

A crise da velha ordem política mergulhou o estado e o país numa era de incertezas, que põe em risco as próprias instituições democráticas. Sem novos projetos e a renovação da representação política, a eleição no Rio caminha para um elevado percentual de votos nulos e brancos. Pesquisas indicam que 23% dos eleitores não estão nem aí para nenhum desses dez candidatos.

* Jornalista e escritor



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