Jornal do Brasil

Terça-feira, 14 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Depois da destruição neoliberal

Jornal do Brasil JOSÉ LUÍS FIORI*

No dia 25 de dezembro de 1991, a União Soviética (URSS) foi dissolvida e, durante a década de 90, uma coalisão de poder formada por uma máfia de políticos corruptos, ao lado de um grupo de economistas e tecnocratas neoliberais fanáticos, liderados por um alcoólatra inveterado, conseguiu destruir – em apenas uma década – o Estado e a economia da segunda maior potência do mundo. Submeteram a política externa da Rússia aos ditames dos EUA e do G7, abandonaram qualquer pretensão russa à condição de “grande potência”, permitiram a desorganização de suas Forças Armadas e sucatearam o arsenal atômico. Em seguida levaram a cabo uma das experiências mais radicais de reformas neoliberais das últimas décadas do século 20. Ainda em 1991, e antes do fim da URSS, Boris Yeltsin já havia encomendado a elaboração de um plano de “transição” com a ajuda de economistas e banqueiros estrangeiros que já tinham participado da “liberalização econômica” da Polônia.  A ponte para o futuro, encomendada por Yeltsin, baseava-se em quatro “reformas” fundamentais: de controle do gasto fiscal; de desregulação dos mercados e em particular do mercado de trabalho; de liberação dos preços e de privatização do setor público, em particular da indústria energética.

O ataque neoliberal foi muito rápido. Em apenas três anos foram privatizadas cerca de 70% das estatais russas, enquanto a abertura e desregulação dos mercados e liberação dos preços aconteceu de forma quase instantânea. Como resultado dessa “pressa neoliberal”, em apenas oito anos o investimento total da economia russa caiu 81%; a produção agrícola despencou 45%; e o PIB caiu mais que 50%, em relação ao seu nível de 1990. Paralelamente, a quebra generalizada da indústria provocou aumento gigantesco do desemprego; perda dos salários, que caíram 58%; enquanto o número de pobres crescia de 2% para 39% e o Coeficiente de Gini saltava de  0,2333, em 1990, para 0,401, em 1999. Essa verdadeira destruição explica, em grande medida, a inflexão estratégica russa que começa no ano 2001, com o fortalecimento do Estado, a reorganização  das Forças Armadas e a retomada da indústria do petróleo e de todo o setor energético. A estatização da petroleira Yukos, em 1993, foi o pontapé inicial dessa remontagem do setor produtivo estatal.

Com a ajuda dos preços internacionais do petróleo e do gás, a economia russa se recolocou de pé e passou a crescer a uma taxa média anual de 7%, entre 2000 e 2010, e depois disso seguiu crescendo, ainda que a taxas menores, até a crise da Ucrânia, em 2014. Nesses anos de bonança, o Estado russo transformou o setor de petróleo e gás no principal instrumento de reconstrução da economia, aproveitando a grande necessidade energética da Europa Ocidental e da China. Num período de 15 anos, a Rússia reconquistou sua condição de grande potência. As sanções econômicas impostas pelas “potências atlânticas”, a partir de 2014, e agora de novo, em 2018, trarão problemas inevitáveis para a economia, mas não vão alterar o rumo estratégico da Rússia. A experiência russa desses últimos 15 anos deixa duas lições: em países extensos e com grande desigualdade social e territorial, as políticas e reformas neoliberais costumam ter efeito imediato,  desastroso, do ponto de vista econômico, e catastrófico, do ponto de vista social; e, em países que dispõem de grandes reservas de petróleo ou de gás, é possível e necessário recomeçar a reconstrução de uma economia nacional a partir da indústria do petróleo, transformando-a no eixo dinâmico de uma estratégia que direcione o capital nacional e internacional, a partir de uma estratégia visando o conjunto da economia e da sociedade detentora das reservas energéticas.

A história não se repete nem pode ser transformada em receita, mas a experiência russa ensina, também, que ainda é possível refazer o Brasil, depois da destruição a que foi submetido por uma máfia de figuras execráveis e pelo fanatismo neoliberal. 

* Cientista político, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)



Tags: brasil, economia, neoliberalismo, política, urss

Compartilhe: