Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Coluna da Segunda: A ‘linha justa’ e o PT

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Na madrugada do dia 21 de agosto de 1968, Praga amanheceu ocupada por tropas do Pacto de Varsóvia. E chegava ao fim o processo de reformas liberalizantes na Tchecoslováquia iniciado por Alexander Dubcek em janeiro. Dubcek não era simpatizante do capitalismo,  como o acusaram, mas sonhava em tirar seu país da órbita da União Soviética e adotar uma espécie de socialismo democrático. Os jovens, dentro da tendência que se via em todo mundo naquele ano, apoiaram a rebeldia do governo tcheco. E saíram às ruas na tentativa de enfrentar os tanques soviéticos com paus e pedras, como se faz hoje na intifada palestina. Criaram uma rede clandestina de rádio e trocaram placas com direção e nomes de ruas para enganar os invasores. A resistência, inviável na época da Guerra Fria, ganhou a solidariedade no Ocidente, mas não durou muito. Em janeiro de 1969, o estudante Jan Palach, ateou fogo as vestes em protesto. Para quem não conhece essa página da história, vale a pena ler o belo romance “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera.

Recordo a Primavera de Praga por um bom motivo. Naqueles dias,  a esquerda brasileira ficou um pouco desorientada. O mundo ainda se dividia entre os que apoiavam os Estados Unidos e o sistema capitalista e aqueles que viam na União Soviética o exemplo a ser seguido por quem sonhava com a hegemonia da classe trabalhadora. Mas os debates sobre a convivência entre democracia e socialismo já ganhavam corpo no meio acadêmico e entre intelectuais de peso. Nesse ambiente, a derrubada de Dubcek provocou uma enorme polêmica. Mesmo na esquerda, houve gente que criticou a decisão de Moscou, uma repetição do episódio da Hungria em 1956. Aqui no Brasil, não foi diferente. Mas, ao contrário do que acontece hoje, não havia em nossas terras uma gama tão variada de correntes e partidos de esquerda. Além disso, havia a forte ascendência do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, comandado pela figura lendária de Luiz Carlos Prestes. Quando o Partidão se pronunciava, alguns militantes diziam que o PCB funcionava como “a palavra de Abraão” na Bíblia. Algo do tipo falou, está falado.

Naqueles tempos — por sinal, bem anteriores ao PT de Lula —, o Partidão dava as cartas e mostrava o norte. E assim aconteceu em 1968. Surpresos com os acontecimentos de Praga, nossos comunistas aguardavam a visão oficial. A chamada “linha justa”. E se viam pressionados para opinar a respeito: afinal, apoiavam ou não os jovens tchecos?  Na redação do Jornal do Brasil, Maurício Azedo, membro aguerrido do Partidão, estava a ponto de se render às críticas de seus colegas, mas era zeloso da hierarquia. Azedo andava pela Avenida Rio Branco pensando exatamente no que fazer, quando avistou o valente João Saldanha, outro comunista histórico. Dirigiu-se ao amigo e expôs sua dificuldade. Qual a posição do partido em relação à invasão de Praga pelos tanques soviéticos? Muita gente de esquerda no JB estava desorientada. Saldanha deu um sorriso malandro e respondeu de bate-pronto: “Ora, Azedo, deixa de bobagem. Na zona do agrião, tem que entrar para rachar!”. Maurício Azedo respirou aliviado. Era isso mesmo. No mundo dividido entre Estados Unidos e União Soviética, Moscou não podia abrir mão da Tchecoslováquia. Havia que manter o domínio sobre o Leste Europeu.

Lá, nos anos 60, era tudo mais simples. E o Partidão servia de divisor de águas. A esquerda não tinha alternativa. Só restava concordar ou discordar das diretrizes emanadas pelo Partidão. As opções eram mais objetivas e todos se sentiam em terreno seguro. Aqueles que discordavam anunciavam a dissidência e afastavam-se do PCB. Hoje, o PT, que na origem contou com a contribuição de ex-militantes do Partidão, considera-se no direito de se apresentar como o partido hegemônico no campo da esquerda. Espera que todas as outras legendas se submetam à sua estratégia e aguardem suas decisões. Os dirigentes petistas acreditam, piamente, que têm o dom da verdade e são clarividentes para antever os rumos da política. O ex-presidente Lula foi elevado ao status de Mandela e Tiradentes. Às vezes, o PT exagera e parece acreditar que a esquerda nasceu entre 1979 e 1980 em São Bernardo do Campo. Acontece, porém, que a esquerda brasileira vem de muito longe e é bem mais complexa. Há que ser mais realista, companheiro, sentar e negociar alianças.  A “linha justa” pertence ao passado.



Tags: lula, pacto de varsóvia, partido, pcb, política, pt

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