Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Obrigado, Dines!

Jornal do Brasil Omar Resende Peres

Ontem, já bem cedo, a manhã havia pouco começado, abriu-se essa chaga no coração deste JORNAL DO BRASIL, acompanhada de dor profunda, dessas que se arrastam pelo tempo. Foi a notícia da morte de Alberto Dines, ícone da imprensa brasileira, que, para honra e glória da história do nosso jornal, aqui militou durante anos a fio, com total e impecável dedicação e competência. 

Dines foi o responsável por mudanças estruturais no JORNAL DO BRASIL, alçando-o a um patamar de modernidade que levou toda a mídia impressa brasileira a acompanhar a “revolução Dines”.

Mais do que a militância, vale considerar, deixou um lastro de absoluta lealdade com a verdade dos fatos, virtude maior que se consolidou no dia a dia de sua pro?ssão. Ao patrimônio de jornalismo que construiu, somou-se o talento do professor na arte de comunicação. Que o digam seus alunos, hoje frequentadores de grandes redações do Brasil.

Foi no seu JORNAL DO BRASIL que Dines escreveu seu último artigo, publicado no dia de nosso relançamento

Dines nunca deixou de ser um homem do JB, ainda que em outras missões. E a mim, pessoalmente, conforta saber, pelo menos, que ele abriu caminho entre as tristezas da enfermidade, para saudar, com um sorriso, a notícia de que seu jornal querido ressuscitara nas bancas. E foi no seu JORNAL DO BRASIL que Dines escreveu seu último artigo, publicado no dia de nosso relançamento.  

Não para menos, porque também amargurava a década de seu jornal adormecido; ele, consciente, mais que qualquer outro, de que essa ausência representava um doloroso vácuo nas lutas brasileiras pela liberdade de cada pessoa e pelo futuro de toda a nação. 

Tomo a liberdade de assegurar que a volta do JB, com seu compromisso de zelar pelos valores da cidadania, é uma grata homenagem que se pode prestar a este pró-homem da imprensa, nos derradeiros dias de sua vida. 

Tendo vivido 86 anos, Dines é desses homens que morrem prematuramente. É gente que a morte atropela, sem considerar o mal que é capaz de praticar, sem medir o tamanho das ausências que produz. Mas, a bem da verdade, digo, teria partido fora de hora, ainda que vivesse um centenário. Porque é da marca dos grandes mestres – e ele o foi, seguramente – ter sempre o que ensinar na longevidade.

Atestem as gerações de jornalistas que por aqui passaram e a que está passando. Muitos dos que com ele aprendem nem o conheceram pessoalmente; nem preciso seria, porque é fácil sentir que suas velhas lições povoam a redação de nosso jornal; seu rigor no trato do idioma; seu respeito às ideias que divergem; sua intolerância com a deturpação dos fatos.

A tais valores associava-se a coragem para enfrentar os agressores da democracia, o que, aliás, o levaria à prisão, nos tempos da ditadura, depois de um discurso público em que apontava os detratores das liberdades no Brasil. Não lhe faltaram, contudo, outras investidas desse jaez, porque, em nome dos direitos fundamentais não se cala, teria dito, certa noite, durante seu consagrado “Observatório da Imprensa”, programa que foi nossa melhor faculdade de jornalismo, onde em Dines se confundiam o professor, o amigo e o cidadão; o quer que fosse, a figura humana exemplar. 

Dines fundou a “Faculdade JB de Jornalismo”. Sim, para ingressar no JB, o novo jornalista contratado fazia um curso dentro do próprio jornal. Cursaram a “Faculdade JB”, Gilberto Menezes Côrtes, Romildo Guerrante, Norma Couri, Silio Boccanera e tantos outros importantes alunos que tiveram como “Professor Coordenador” Fernando Gabeira.

Eis, portanto, o homem imortal, cuja ausência empobrece nossa cultura. Digo imortal, convicto, porque soube, recentemente, que ele cultivava, entre suas intermináveis leituras, versos preferidos de Fernando Pessoa, o grande vate da Língua Portuguesa. Dines certamente teria lido no poeta que a morte é apenas dobrar a esquina, não ser visto mais. Não será assim com ele, porque, pelo menos no JORNAL DO BRASIL, as maravilhosas lembranças do grande jornalista vão caminhar em linhas retas e perenes. Dines nunca desaparecerá nas esquinas, muito menos nas redações. 

Hoje, não temos editorial. Seria pouco para homenagear Alberto Dines. Hoje, temos como manchete, infelizmente, o seu passamento. Mas uma coisa é certa: o JORNAL DO BRASIL “continuará sendo Alberto Dines”.

OMAR RESENDE PERES

Presidente do JORNAL DO BRASIL

Em nome de toda a redação e de todos os funcionários



Tags: dines, história, homenagem, jb, jornalismo

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