Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Defesa da regulamentação da profissão de ator é exigência de todo o Brasil

Jornal do Brasil MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND*

É importante lembrar que, para ter a profissão regulamentada, os artistas brasileiros travaram uma luta árdua e que tiveram como protagonistas vários e várias atrizes, que antes da regulamentação eram obrigadas a tirar uma carteira de saúde, o mesmo tipo de documento que as prostitutas tinham de portar. 

Pois bem, neste momento, a Procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e a ministra Cármen Lúcia, que preside o Supremo Tribunal Federal (STF), estão se posicionando contra a regulamentação da profissão, sob o pretexto de uma suposta liberdade de expressão. Elas argumentam, absurdamente, que a regulamentação fere a liberdade de expressão. É importante mencionar, ainda, que atrizes como Dercy Gonçalves, Tônia Carreiro, entre outras, antes da regulamentação da profissão por elas exercidas, eram  obrigadas a portar a tal carteira de saúde. 

Na verdade, a exigência fazia parte do mesmo jogo de Raquel Dodge e Cármen Lúcia, que até agora se recusam a receber representantes da categoria para ouvir o que têm a dizer. Certamente, Cármen Lúcia, também conhecida como musa da Globo, não tem argumentos para defender o que ela considera “liberdade de expressão”, já que a extinção da regulamentação da profissão de ator significa exatamente o contrário que Cármen Lúcia e Raquel Dodge defendem. 

É mais do que necessário que a opinião pública seja informada sobre as pretensões das duas representantes da Justiça brasileira. E, claro, tome a defesa da categoria que é acompanhada hoje diariamente pela população brasileira com as telenovelas. 

Vale complementar a lembrança que, finalmente, depois de muita mobilização e debates, a profissão foi regulamentada em 1975. Até o governo ditatorial de então teve de ceder à exigência dos atores e das atrizes.

Nessa luta cabe ainda lembrar que, na década de 50, a atriz Dulcina de Morais, quando ia encenar uma peça em Recife, foi obrigada a mostrar a carteira de saúde para liberar a apresentação. Ela se recusou a atender o pedido e preferiu cancelar a temporada. Essa e demais informações constam do trabalho acadêmico de Rosa Maria Silva, intitulado “A Arte Censurada: Teatro e ditadura no Estado da Paraíba nos anos de 1964 - 1988”. 

O fato deve ser lembrado e sempre mencionado, sobretudo neste momento em que Raquel Dodge e Cármen Lúcia querem que o setor artístico brasileiro recue no tempo. E isso em nome de uma suposta liberdade de expressão. 

De alguma forma esse retrocesso remete também à discussão que mistura liberdade de imprensa com liberdade de empresa. É que os falsos defensores da liberdade de imprensa não entendem que essa suposta liberdade que defendem não tem nada a ver com a liberdade propriamente dita, mas sim com a liberdade de empresa, que satisfaz apenas os interesses das poucas famílias controladoras dos meios de comunicação em todo o país. 

Daí a importância de todos os brasileiros e brasileiras apoiarem sempre a manutenção da regulamentação da profissão de ator e exigir que Raquel Dodge e Cármen Lúcia informem-se melhor sobre a questão. Se é que elas assim se posicionam por ingenuidade e não estão a apoiar setores patronais interessados no fim da referida regulamentação profissional.

* Jornalista e escritor



Tags: artigo, ator, jb, regra, texto

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