Jornal do Brasil

Segunda-feira, 16 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Diálogos interartísticos

Jornal do Brasil FLORA SÜSSEKIND

Desde o primeiro esboço da série “Cultura Brasileira Hoje: Diálogos”, a questão do “diálogo”, do “dois”, foi elemento essencial do projeto. Nunca desejamos unicamente compilar depoimentos autônomos, seguidos de um conjunto de questões sobre determinada obra individual. Desejávamos isso também. Assim como nos interessava compreender a dinâmica especulativa presente no trabalho de todos os artistas e escritores que participaram dos depoimentos, convidados a uma atitude autocrítica e à exposição das formas de pensamento inscritas em sua atuação. Inclusive no caso dos críticos de arte, cinema ou literatura que fizeram parte das diversas fases do projeto. 

Mas nosso interesse fundamental pela singularidade desses percursos, motivo pelo qual foram esses os participantes convidados, assim como pela emergência e pelas transformações dessas poéticas, sempre se fez acompanhar de outro elemento que seria determinante na nossa opção pelo depoimento em dupla, pelo diálogo como formato para essa série de encontros. Pois, em vez do foco exclusivo num único percurso de cada vez, buscou-se metodicamente um desdobramento de perspectiva, uma abordagem contrastiva, com resultados por vezes propositadamente imprevisíveis, como quando aproximamos artistas que jamais tinham se encontrado antes. Esse foi o caso, entre outras duplas, de Ana Carolina e Antonio Dias, Elizabeth Jobim e João Saldanha, de Marília Garcia e Flavia Meireles, Anna Bella Geiger e Juliana Carneiro da Cunha, Carlito Azevedo e Waltercio Caldas.

Nem sempre tão imprevisíveis, no entanto. Pois convidamos por vezes duplas de amigos, como Angelo Venosa e Bernardo Carvalho, Bia Bracher e Carlito Carvalhosa, José Resende e Ronaldo Brito, cuja conversa em público parecia dar prosseguimento a inúmeras outras, a uma interlocução que se sabia (e percebia) estar em curso há muitos anos. E reunimos também, em alguns depoimentos, críticos e artistas cujo trabalho já fora comentado por eles. Como Eduardo Sued e Paulo Sergio Duarte, Eryk Rocha e Carlos Alberto Mattos, Antonio Geraldo e Luiz Costa Lima. Nesses casos, se já havia um solo comum (afetivo ou disciplinar) prévio, a simples situação de um debate ao vivo, com entrevistadores de diferentes áreas e um auditório cheio, já se encarregava de impor alguns sobressaltos mesmo a encontros pautados por certa ou muita intimidade.

O formato dialógico e as condições para o desencadeamento de alguma imprevisibilidade foram, então, fatores obrigatórios na idealização do projeto “Cultura Brasileira Hoje: Diálogos”. Sobretudo porque nosso desejo nunca foi  simplesmente reiterar trajetórias, mas, sim, tentar dimensioná-las criticamente. E registrá-las em movimento, acompanhando o ritmo e a lógica  de pensamentos em ação. Daí, desde 2004, o interesse pelos registros em áudio e em vídeo dos gestos, silêncios, ênfases, hesitações, que acompanham essas falas. Daí a nossa preocupação, ao publicar as transcrições, em preservar o tom e o ritmo das conversas, sem interferir editorialmente demais no material gravado.

Do mesmo modo, procuramos propositadamente, durante os debates, ocupar um lugar sobretudo de escuta, deixando que cada dupla, cada conversa, configurasse o seu ritmo peculiar. Não só investigando, assim, as características e dominâncias de determinadas trajetórias intelectuais e artísticas, mas expondo de perto um conjunto de experiências de diálogo e o movimento, as conexões e as especificidades que assumem formas ativas de pensamento como as que registramos nesses volumes.



Tags: artigo, cultura, dialogo, projeto, serie

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