Jornal do Brasil

Quinta-feira, 26 de Abril de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Questão de confiança

Jornal do Brasil SÔNIA ARARIPE

Contra dados e fatos não há argumentos. No atual cenário de “palpitódromo” generalizado, exarcebado pelo clima de “Fla X Flu” das mídias sociais, nada mais relevante do que a divulgação esta semana do estudo global Edelman Trust Barometer, com foco em confiança. Este é o 18º ano da divulgação do levantamento, que avalia não a reputação, algo mais focado no passado, mas sim a confiança, de olho no presente e futuro. 

Não há dúvida. Vivemos sim uma crise de confiança. Aqui, alhures, em qualquer recanto deste planeta tão polarizado e dividido. O estudo da Edelman – uma das mais conceituadas agências globais de Relações Públicas – joga luz sobre um sentimento que todos nós já desconfiávamos não é de hoje. 

O Trust Barometer foi realizado em 28 países, inclusive o Brasil, ouvindo 33 mil pessoas, com o trabalho em capo realizado entre 28 de outubro e 20 de novembro de 2017. A apresentação do estudo no Rio foi realizada no Ibmec, com a participação do CEO da Edelman no Brasil, Martin Montoya (norte-americano, criado na Argentina), de Ana Julião, vice-presidente da Edelman no Brasil e participações do jornalista Fernando Molica e da professora Patrícia Esteban, do Ibmec nos comentários. 

Do cenário global, importante notar a polarização, com países divididos sobre a questão da confiança. Alguns se destacam pelo ganho, como China, Emirados Árabes, Coreia do Sul, Suécia, Malásia e Polônia. No entanto, do outro lado da gangorra, para baixo, com queda de confi ança estão o Brasil, assim como os Estados Unidos, Itália, África do Sul, Índia e Colômbia. Vamos focar mais no Brasil e quem quiser poderá conferir todos os dados no link da pesquisa (www.edelman.com.br).

Por aqui, a confiança caiu em todas as instituições pesquisadas: governo, empresas, ONGs e mídia. O governo registrou a maior perda, seguido pela mídia. Para 81% dos consultados pela pesquisa, “o governo é a instituição mais corrompida” entre as quatro pesquisadas, quase o dobro da média global, enquanto 41% dos entrevistados no Brasil afirmam que as empresas representam um caminho para um futuro melhor. Neste ano de eleições – completamente diferenciadas pelo fi m do financiamento de empresas – interessante notar que o Brasil parece ter noção exata do calo que o apertava em um sapato que ninguém parece mais querer calçar. 

Outro ponto destacado pelo trabalho foi a mídia e as chamadas notícias falsas, ou “fake news”. Pela primeira vez nos 18 anos de levantamento, a mídia foi a instituição menos confiável globalmente. Em 22 dos 29 países, a mídia está no território da desconfiança, abaixo de 50 pontos. O Brasil está entre as nações que registraram as maiores quedas, ao lado da Índia e dos Estados Unidos  – a confiança na mídia nas três sociedades caiu cinco pontos. Ana Julião, VP da Edelman Brasil, frisou que o conceito de mídia e de produção de notícias mudou completamente e que a diminuição da confiança nas plataformas digitais (mecanismos de busca e redes sociais) está entre as responsáveis pelo cenário – entre os brasileiros também caiu cinco pontos. 

O estudo detectou no Brasil – e no mundo – muitos dos entrevistados simplesmente não leem notícias com frequência porque os deixam perturbados. Aquele “baixo astral” diante de tantas mortes, desvios por conta de corrução e outros temas que nos sobressaltam dia e noite. Sobre as notícias falsas, 75% dos entrevistados se preocupam que estas notícias “possam ser usadas como armas”. Outro dado assusta: no Brasil, 67% das pessoas comuns não sabem distinguir o bom jornalismo de boatos ou mentiras. 

E qual é o porta-voz mais crível? De acordo com o levantamento, aumentou a fé em especialistas e houve um declínio na credibilidade entre pares (amigos e familiares) globalmente. O estudo destaca que, no Brasil, as principais vozes que representam especialistas recuperaram credibilidade: o sentimento em relação aos jornalistas aumentou 12 pontos para 47%; nos oficiais do governo, seis pontos para 28% e nos CEOs, quatro pontos para 52%. A credibilidade da pessoa comum, por sua vez, despencou oito pontos para 70%, mas a pessoa comum continua a ser o porta-voz mais confiável na opinião dos ouvidos. Na avaliação dos representantes da Edelman, esta queda na confiança em amigos e familiares é mais um reflexo de sociedades polarizadas, onde as pessoas priorizam ouvir, ler e compartilhar pontos de vistas semelhantes aos seus seguindo a tendência do viés de confirmação. 

E as empresas? Qual é o papel das corporações e seus CEOs neste cenário? O estudo da Edelman também traz informações preciosas para os líderes empresariais. Quem trabalha em corporação com negócio em pequena cidade do interior sabe que precisa praticamente fazer o papel do prefeito, do governo federal, quiçá de “representante de Deus”.  Por estas andanças de jornalista, lembro, em viagem de campo na Amazônia, há cerca de 15 anos, de ter visto o “nascimento” de recém-emancipado pequeno município do sul do Pará. Governantes e a população esperavam de grande empresa brasileira não só empregos, renda e investimentos, mas também a conclusão do hospital, da estrada que ligava ao município maior e até mesmo a construção de um cemitério. 

Apesar da queda de quatro pontos, as empresas ainda estão entre as instituições mais confiáveis entre os brasileiros. De acordo com o Trust Barometer, 60% dos entrevistados no Brasil afirmam que os CEOs devem assumir liderança em movimentos de mudanças, ao invés de esperar que o Governo imponha. Martin Montoya destacou que há oportunidade para os CEOs liderarem este processo, já que a confiança é um ativo de valor para as instituições. Alguns setores se destacam como mais confiáveis, como tecnologia, mas a confiança caiu em alimentos e bebidas, indústria e bens de confumo. 

O trabalho é longo, caprichado e detalhado. Joga luz em um verdadeiro vácuo que deixa espaço para o crescimento do obscurantismo desenfreado. Precisamos de menos “achismos”. Por mais dados, pesquisas e informações confiáveis. Porque, sem dúvida, confiança é o cerne da questão. 

(*) Sônia Araripe é Editora de Plurale (www.plurale.com.br) , revista e site com foco em sustentabilidade. Email: soniaararipe@plurale.com.br



Tags: artigos, economia, jb, jornal do brasil, trust barometer

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