Jornal do Brasil

Segunda-feira, 16 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

National Geographic: esqueça a raça e foque na genética

Jornal do Brasil GILBERTO SCOFIELD JR.

A mais que centenária “National Geographic” está disponível no site https://www. nationalgeographicbrasil.com/ e nas bancas de jornais numa edição de abril histórica e imperdível. A revista – cuja capa traz as irmãs gêmeas Marcia e Millie, de cores bem distintas - trata de usar a ciência para provar que o conceito de raça foi inventado por grupos sociais numa narrativa de “ameaça do outro”, existente desde que o mundo é mundo. E prova, dentro dos mais modernos estudos da Genética, que as diferenças de tons de pele existentes hoje nada mais são do que adaptações dos genes responsáveis pela pigmentação à exposição maior ou menor do indivíduo ao sol. 

A revista lembra – nunca custa lembrar – que a nossa espécie, o homo sapiens, evoluiu na África e que o achado mais antigo de fóssil, na aldeia-tornada-sítio-arqueológico Djebel Irhoud, no Marrocos (que fica na África, para quem não está juntando o nome à pessoa), indica que as características anatômicas dos seres humanos surgiram há coisa de 300 mil anos. E a grande jornada de formação populacional do planeta teria começado, a partir da África, há coisa de 200 mil anos, primeiramente na direção do Oriente Médio e Sul da Ásia. A movimentação mais recente foi justamente a que trouxe as comunidades para as Américas, entre 20 mil (América do Norte, via Estreito de Bering) e 12 mil anos atrás (América do Sul). 

Em outras palavras: esqueça o conceito de raça e perceba que é a genética que revela a sua história. Qualquer um de nós que se disponha a buscar seus antepassados via pesquisa de DNA vai encontrar seus ancestrais africanos em algum momento da grande jornada humana. Nunca uma hashtag #somostodosafricanos provou ser tão correta em relação a qualquer grupamento humano do planeta. É leitura para tirar da zona de conforto. Saber que há mais diversidade genética na África que em todos os outros continentes juntos porque a humanidade nasceu ali é fascinante. Desmistificar os primeiros estudos “científicos” do médico Samuel Morton, que pretendia classificar os seres humanos de acordo com o formato do crânio, e rotulá-los como um dos primeiros exemplos de “racismo científico” a fundamentar uma pseudo supremacia branca exige boas doses de pesquisa, coragem e jornalismo de verdade. 

A “National Geographic” se revolucionou com a nomeação de Susan Goldberg como editora-chefe da revista (online e offline) e diretora editorial da NG Partners em 2014/2015. Antes de publicar esta edição especial, ela declarou, com a coragem que se exige dos executivos de jornalismo/conteúdo que ousam levar para cima (acionistas) e para baixo (leitores) a realidade dos fatos: “Por décadas, nossa cobertura foi racista. Para superar este passado, nós precisamos admiti-lo”. E o que fez Susan, a primeira mulher (e judia) a dirigir a revista nos seus 130 anos de existência? Convidou o professor da Universidade de Virgínia, John Edwin Mason, especialista tanto em História da fotografia como em História da África, para explorar e estudar os arquivos da revista, desde seu lançamento em 1888, até hoje e descobrir como a publicação tratou a ideia de raça em suas páginas. 

O resultado é resumido pela própria Susan: “até a década de 70, a revista praticamente ignorou os norte-americanos que não eram brancos, raramente os reconhecendo fora das categorias de trabalhadores manuais e empregados domésticos. Ao mesmo tempo, costumava apresentar os “nativos” de outras partes do mundo como indivíduos exóticos, caçadores joviais, nobres selvagens - ou seja, lançando mão de todos os tipos de clichê. Segundo Mason, a NatGeo pouco se empenhou em apontar aos leitores algo além dos estereótipos arraigados na cultura branca dos EUA. “Os americanos baseavam as suas noções de mundo nos filmes de Tarzan e em toscas caricaturas racistas”, diz ele. “A segregação racial era vista como normal”.

Na semana que vem, voltaremos a essa edição histórica da NG quando conversarmos sobre que polícia, afinal, queremos e precisamos. Não se espantem. Todos vão entender a razão. Por ora, o que me interessa, como um sujeito debruçado sobre as questões de comunicação, mídia e estratégias digitais, é desmistificar a ideia de que a internet foi disruptiva para a indústria da comunicação – especialmente jornalismo e publicidade - por conta apenas da quebra de um modelo de negócio baseado em anúncios. 

Foi isso e muito, mas muito mais. Foi disruptiva principalmente por criar plataformas de expressão de individualidades que a comunicação tradicional, como no mea-culpa de Susan Goldberg, nunca quis nem se esforçou em enxergar. Foi como se, de repente, milhões de vozes se levantassem das cadeiras e dissessem: “Esperem aí! Eu não estou me vendo nesse jornal, nessa TV, nesses livros, nessa publicidade, nesse teatro, nesse cinema, nessa narrativa, nessa música. Onde estamos nós, que somos maioria?” Quem entendeu isso está triunfando.

A verdadeira revolução digital, a que desestabilizou o mundo da comunicação tradicional, foi a que deu lugar de fala e protagonismo à estrondosa maioria de gente invisível no planeta. Uma salva de palmas para a NatGeo. 



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