Jornal do Brasil

Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

A Muralha da China e o muro do medo: o fraco rei

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN *

A China foi a maior economia do mundo em 18 dos últimos 20 séculos. Perdeu essa posição entre o início do século 19 e a primeira metade do século 20. Recuperou-se dos 150 anos em que esteve às voltas com o imperialismo europeu. Caminha para atingir sua milenar posição de primeira economia mundial até a metade deste século. Hoje, é o principal destino de nossas exportações. Os Estados Unidos é o segundo. Ambos têm imensos territórios. Ambos são dotados de armamentos que podem fazer de nosso planeta uma poeira no espaço sideral. Ambos estão em ferrenha competição em busca do poder global. Ambos sabem muito bem o que querem. Ambos têm diplomacias competentíssimas, com estilos diferentes, embora, para o cervo, tanto faz o estilo do leão ou do leopardo. Ambos, porém, têm uma característica que os assemelha como o espelho à imagem. São ou querem ser o centro da Terra. Geocêntricos. E ambos nos querem envolver em seus meridianos. 

A China, com o seu Confucionismo, promove uma teia sedutora e envolvente como o canto da sereia. Os EUA, em seu fundamentalista destino manifesto, se impõem uma missão tão evangelizadora quanto predadora. Nessa contenda de elefantes, nós somos, como dizem os indianos, a grama pisoteada. 

Nessa guerra, que se diz comercial, joga-se o futuro do planeta. Não haverá certamente vencedores, mas sua mera ameaça já configura um tabuleiro de vencidos. Longe de ser uma questão de tarifas e quotas, a questão em jogo é o domínio da tecnologia em sentido amplo. Os Estados Unidos já foram explícitos ao acusarem os chineses de roubo de propriedade industrial e coerção para fundir acesso a mercado com inteligência empresarial. O problema se amplifica quando a chamada indústria 4.0 parece menos dependente de mão de obra barata, que constituía, nos anos 90, juntamente com imenso mercado interno, o grande polo de atração do investimento direto na China. 

Não que outros países não façam ou tenham feito a mesma coerção. A cópia ou tecnologia reversa explica muito do desenvolvimento industrial e tecnológico de países, hoje desenvolvidos, que saíram da Segunda Guerra Mundial economicamente arrasados. Hoje, uma das características da inovação é seu ciclo rápido de obsolescência e a queda de lucros marginais. 

Decorrem daí duas interessantes consequências. A positiva é a ênfase numa educação moderna e adaptada às necessidades do mundo em que a massa cinzenta será a condição necessária para a massa humana encontrar caminhos de felicidade e satisfação sociais. Essa é uma questão de opção interna do Estado e de seu povo. A vertente negativa é malévola, discriminatória e antissocial. Exatamente porque os avanços tecnológicos sofrem grande pressão concorrencial, torna-se atraente buscar fórmulas jurídicas que estiquem o seu prazo de intocabilidade. Essas fórmulas atendem pelo nome de propriedade intelectual e, em muito casos, tornam-se abusivas, em especial, no caso de patentes farmacêuticas e similares.

Os EUA querem levar para a OMC a questão da suposta pirataria chinesa. Obviamente, para tornar ainda mais severas as regras vigentes. O movimento agradou os japoneses que se querem colocar no pleito ao lado dos americanos. 

Ao Brasil não interessa um endurecimento das regras de propriedade industrial. Essa febre de patentear sementes transgênicas, genes humanos e congêneres pertence ao reino do Dr. Frankenstein. 

Mas Trump já avisou que, na Cúpula das Américas, no Peru, dia 16, vai solicitar apoio das nações latino-americanas para seu embate com a China. E a China, discretamente, já nos alertou que não nos deveríamos associar à posição americana. 

Parece-me que a posição brasileira diante dessas duas nações amigas deveria ser tão clara e sincera quanto indiscreto e ardiloso é o pedido de apoio que ambas nos fazem. O Brasil tem 220 milhões de bocas a alimentar. Uma infância carente de educação e saúde. Uma juventude em busca de trabalho e instrução especializada. Aparentemente, o negociador brasileiro não teria dificuldades em esclarecer uma questão tão óbvia.

Ocorre que hoje no Brasil certos economistas complicam, como verdadeiros Mandarins de Chicago, a vida dos negociadores. Uns estão a defender a redução unilateral de nossas tarifas, sem qualquer reciprocidade. Outros, a cortar e cortar dotações de saúde e educação. Iluministas da mediocridade. 

Nossos reis presentes e futuros deveriam lembrar-se de Camões: “ O fraco rei faz fraca a forte gente”.

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: bahadian@jb.com.br)



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