Jornal do Brasil

Domingo, 17 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

O avanço civilizatório do politicamente correto 

Jornal do Brasil Gilberto Scofield Jr.

Dias desses, estava com a família num desses quiosques bacanudos de São Conrado quando um grupo de locais (não da Comunidade da Rocinha, mas dos prédios de luxo mesmo) iniciou a defesa de uma tese sobre gays com a acusação de que gays são “predadores sexuais”, que “quando querem dar para você, não adianta: ele não sossega enquanto não dá”. 

Todos morriam de rir e outro emendou com a tese de que “gay é gente ruim”. Por sorte, as crianças estavam na areia e não ouviram estas pérolas da psicologia. Eu estava totalmente de bem com a vida naquele dia, cansado de barracos e, já que todos conversavam e teclavam animadamente nos celulares, fiz uma foto do grupo, postei na minha página no Facebook e tratei de repetir a conversa, mais ou menos como fiz acima.

 Terminamos, pagamos a conta e ainda no carro de volta para Laranjeiras, recebi um messenger de uma amiga pedindo para eu tirar a foto. Ela era amiga de uma das pessoas e afirmou que a sujeita “era um amor, não tinha preconceitos e ela só estava ouvindo”. Um caso clássico de “seis grau de separação” que só as redes sociais conseguem proporcionar. Pensei que a tal mulher poderia – como eu - estar exausta de comprar brigas e, a pedidos, tirei o post da página. 

No dia seguinte, em visita a um cliente e na espera do elevador, ouço de um engravatado para outro: “Estão me acusando de machista, mas não tenho nada contra mulher na chefia. O que interessa é a capacidade do funcionário”. Ao que o outro pondera: “Mas ela é a melhor daquele departamento”. E o sujeito: “Mas é petulante”. Entrei no elevador, matutando sobre velhos clichês preconceituosos e como é difícil superá-los. E me lembrei de uma senhora, num restaurante fino da Zona Sul carioca, em conversa com a amiga na mesa: “É um negro fora dos padrões”, emendado com “mas eu vou até falar baixo, senão me crucificam. O mundo anda chatíssimo por conta dessa onda de politicamente correto”. 

Não, não, não. O mundo não anda chatíssimo por conta da onda do politicamente correto. O politicamente correto é um avanço civilizatório e só não entende quem é incapaz do exercício da empatia. Porque a onda politicamente correta só ganhou força quando grupos historicamente postos à margem decidiram romper com os preconceitos e com estereótipos e passaram a protestar contra uma linguagem pública que os diminuía e os diminui. Decidiram sair da periferia e ocupar seu lugar no centro do espetáculo. Afinal, ser dono do discurso, sabem nove entre dez jornalistas ou professores, é poder.

Mulher gostosa e quase pelada para vender cerveja? Não. Até porque mulher também bebe cerveja (que não precisa vir em rótulo cor de rosa). Negros em eternos papéis de empregados ou bandidos na TV? Não, até porque um ex-ministro do STF negro, Joaquim Barbosa, vem sendo uma das pessoas mais cortejadas para a corrida presidencial deste ano. Bichas desmunhecando para fazer rir? Não, até porque o seu marido pode ser um gay no armário (e eles infelizmente ainda são muitos) e fugir às escondidas para uma sauna em toda a “viagem a negócios” que faz. 

O mundo é historicamente controlado pelo homem heterossexual branco e o que o politicamente correto faz é tirar o cidadão da zona de conforto e esfregar na cara dele a complexidade humana. Mas essa compreensão e a mudança de atitude exigem inteligência. E perspicácia. E empatia. E mesmo um estado de espírito mais compreensivo. São artigos em falta numa sociedade polarizada, dilapidada econômica e moralmente e à beira de um ataque de nervos.        

 Fazer humor com oprimido sempre exigiu menos, intelectualmente, do que fazer humor com opressor. E quando o oprimido decide levantar a voz contra injustiças, a reação é apontar a “chatice” do politicamente correto. Tenho uma amiga que tem um conceito ótimo sobre um conservador preconceituoso. Diz ela que este tipo é um tipo que “morre de saudades de um tempo em que lugar de mulher era na cozinha, lugar de negro era na senzala e lugar de bicha era no armário”. Pois é. Acostumem-se com o mundo novo.  



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