Jornal do Brasil

Segunda-feira, 18 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

O que comemorar?

Jornal do Brasil Claudia de Abreu

Em um momento marcado pelo crescimento da violência contra a mulher, números do IBGE mostram um aumento da participação feminina no mercado de trabalho nos últimos anos. Mas não há o que comemorar. Os salários continuam a ser mais baixos do que os de homens na mesma função. Como se a empresa quisesse levar alguma vantagem ao contratar ou valorizar uma trabalhadora. 

Uma pesquisa recente realizada com oito mil profissionais pela agência de empregos Catho revelou que esta discriminação acontece em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolaridade pesquisados. A pesquisa apontou que as trabalhadoras do setor jurídico são as que apresentam maior diferença salarial. 

Dados do IBGE mostram que a discriminação, ainda maior com as mulheres negras, se acentuou nos últimos anos. Em 2011, as mulheres ocupavam 39,5% dos cargos gerenciais no país. Este número em 2016, caiu para 37,8% e a estatística abrange os setores público e privado. E quanto mais alto o cargo, maior a desigualdade.

Apesar de, na média da população, as estatísticas apontarem que a mulher tem maior escolaridade do que os homens, na hora da contratação ou na hora e ascender dentro de uma empresa, elas são preteridas. 

E não apenas mulheres jovens, por conta de uma possível maternidade, encarada como um risco e um problema. Nota técnica do IPEA de 2016 aponta que a mulher após os 50 tem ainda mais dificuldade de inserção no mercado de trabalho do que os homens. O mesmo estudo afirma que “o processo de feminização do mercado de trabalho parece estar se esgotando”. 

Em relação às jovens, o IBGE aponta que entre as mulheres com filho na faixa etária de 25 e 49 anos, 54,4% estavam trabalhando em 2016, contra 70,8% dos homens com filhos. No caso da mesma faixa etária sem filhos, o nível de ocupação foi de 65,8% entre as mulheres e 74,4% entre os homens. 

Nas mudanças previstas para a Reforma da Previdência, adiada para o próximo ano, as mulheres serão as mais penalizadas. Enquanto os homens mantem os 65 anos de idade mínima para se aposentar, as mulheres terão que aumentar dos atuais 60 para 62 anos. Apesar dos números do IBGE apontarem que mulheres que trabalham dedicam 73% mais horas do que os homens nos serviços domésticos. 

Essa realidade acontece em muitos países. Dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostram que as mulheres trabalham, em média, pelo menos o dobro do que os homens nos afazeres domésticos. 

Por conta de tudo isso, movimentos feministas de diversos países convocaram ano passado e este ano uma greve geral das mulheres, para denunciar o retrocesso dos direitos femininos e as discriminações, pressionando governos e empresas. 

Até famosas como a atriz Penélope Cruz defenderam nos últimos dias a paralisação geral das mulheres no dia de hoje, em defesa da paridade salarial e da igualdade de condições trabalhistas. E para denunciar que, além da discriminação, o assédio moral e sexual também é maior sobre as mulheres.

* Advogada trabalhista



Tags: dia, ibge, luta, mulher, mulheres

Compartilhe: