Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Tóquio, uma cidade compartilhada

Jornal do Brasil Taiga Gomes *

Vivo no Japão desde 2013.  Sou jornalista, carioca, e fui presenteada pela vida com a oportunidade de mergulhar em uma cultura oposta à minha, em muitos sentidos. Geograficamente o Japão não poderia ser mais longe do Brasil. Culturalmente, é impossível resumir as diferenças. Sociedades são complexas, e cada pessoa tem uma experiência única, dependendo de suas referências. Minhas palavras relatam o meu ponto de vista, o que eu aprendi vivendo em Tóquio. 

Foi fácil escolher o tema desse artigo, tão significativo para mim por estar no jornal que me apresentou o jornalismo, que fez parte das minhas primeiras leituras décadas atrás. Convivência urbana. De longe o que mais me encanta em Tóquio. Vou começar pelo que me chamou atenção logo nos primeiros meses da minha vida no Japão. Eu resumo em uma frase, que acho que deve ser repetida como um mantra. Em espaços compartilhados, o bem estar coletivo está acima do individual. 

Meu primeiro texto de sucesso no blog que produzo foi sobre lixo. E ele nasceu quando eu me dei conta de que em Tóquio, metrópole mais populosa do mundo não há latas de lixo nas ruas, não há garis e as calçadas são limpíssimas. Cada cidadão é consciente da sua responsabilidade em cuidar da cidade. O lixo é de cada um. Simples e óbvio, não? 

Eu já passei vários apertos segurando meu lixo, sem ter onde jogar fora. Agora aprendi com os japoneses a não comer andando na rua. Dentro das lojas de conveniência, das sorveterias e cafés, tem latas de lixo, onde se pode separar papel de plástico, ajudando na reciclagem. Há também várias máquinas automáticas de bebida, sempre com um local para se jogar fora apenas os produtos vendidos nelas – separados entre latas e garrafas pet. É tudo uma questão de hábito e consciência. 

Aqui, só se vê pessoas varrendo as calçadas quando as folhas caem das árvores, e são voluntários, funcionários de empresas da rua (de diferentes escalões) e moradores. É muito comum também encontrar grupos de estudantes limpando as ruas (mesmo já estando limpas!), faz parte da educação deles aprender que o espaço público é um bem de todos. 

Dentro da mesma lógica do lixo, em Tóquio são pouquíssimas as  ciclovias e 14% da população usa bicicleta pelo menos uma vez por dia. 

Nos primeiros meses depois de comprar minha bicicleta, eu tinha mais coragem de andar pelas calçadas do que na rua com os carros. É claro, meu raciocínio era me proteger em primeiro lugar, não me arriscar a ser atropelada por quem está mais forte e rápido do que eu. Depois que eu entendi que o respeito permeia o comportamento do cidadão, passei a pedalar no asfalto tranquila. Os motoristas dirigem dando prioridade aos ciclistas que estão na rua. E nas raras calçadas em que as bicicletas devem circular (sempre largas), os ciclistas pedalam dando prioridade aos pedestres. 

Quem se locomove está sempre atento ao mais fraco e assim todos convivem em harmonia. Perceberam a diferença básica? Primeiro eu me preocupava com a minha segurança. Agora eu me preocupo com a segurança do outro. O pedestre é o único que não tem responsabilidade e pode andar distraído. 

Em uma sociedade que enxerga o coletivo, não há necessidade de de ciclovias ou garis. A cidade é compartilhada. Essa é a palavra chave. Quando compartilhamos um espaço, devemos ter a consciência de que outras pessoas também o utilizam. Portanto, nossa ação não pode de forma alguma ser predatória. Tudo uma questão de respeito ao outro, um valor fundamental para a convivência sadia dentro de uma metrópole como Tóquio ou o Rio de Janeiro. 

*Jornalista



Tags: artigo, cidade, japão, jb, tóquio

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