Jornal do Brasil

Segunda-feira, 18 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

O protecionismo de Trump

Jornal do Brasil Luiz Gonzaga Beluzzo

“A América vai ser grande outra vez” ou “Vamos devolver os empregos aos americanos”. Em suas arengas eleitoreiras, Trump prometia impor uma tarifa de 35% sobre produtos chineses, além de promover a volta das empresas americanas (des)localizadas no México. Até agora, o presidente americano sapecou 25% no aço e 10% no alumínio, além de ameaçar com tarifas destinadas aos automóveis europeus. 

“Morte por China. Esse é o risco real que todos nós enfrentamos enquanto a nação mais populosa e a caminho de se tornar a maior economia do mundo está rapidamente se tornando no mais eficiente assassino do planeta”. É nesse tom que Peter Navarro, professor de economia e política pública na Universidade da Califórnia, recentemente nomeado diretor do National Trade Council por Donald Trump, inaugura o primeiro capítulo do seu livro Death by China. 

Para o novo tutor do comércio americano, as campeãs nacionais chinesas apoiadas pelo estado, com a potente combinação de mercantilismo e protecionismo, configuram armas de destruição de empregos americanos. 

Suas posições registram a inviabilidade da visão encantada do livre comércio, como um grande amigo secreto entre nações, onde cada um leva o que produz de melhor. 

Navarro desanca a teoria das vantagens comparativas: “se você deseja descobrir o que não é o livre comércio, tente ler qualquer um dos livros-texto de economias que nossas crianças estudam nas faculdades hoje em dia. Seus olhos vão rolar, sua cabeça vai girar, e seu estômago irá torcer pelo divórcio desses textos com a realidade da arena do comércio global. É como se Gandhi tivesse substituído Clausewitz e Sun Tzu em cursos de estratégias militares... apesar da abundância de evidências contrárias, esses livros-texto, continuam a ensinar as virtudes do livre comércio e dos assim chamados ‘ganhos do comércio que todos nós deveríamos nos beneficiar’. 

Ele inculpa “oito práticas comerciais injustas” chinesas pela queda na participação da manufatura no produto doméstico de 25% para 10%, cabendo protagonismo para a taxa de câmbio “espertamente manipulada”, que equivale a uma tarifa uniforme de importação e um subsídio à exportação. “Se o dinheiro é a raiz de todo mal, então a manipulação chinesa da sua moeda, o yuan, é a raiz central de tudo de errado na relação comercial entre Estados Unidos e China”. 

As palavras do Conselheiro de Comércio Exterior do governo americano reiteram a longa tradição protecionista dos   Estados Unidos. Sugiro uma olhadela nas tarifas americanas que vigoraram ao longo do século XIX, sobretudo depois da Guerra Civil. O economista Bradford Delong em seu livro Concrete Economics, demonstra que entre 1860 e 1879, no apogeu do prestígio do livre-comércio, os Estados Unido teimavam em permanecer como o país mais protecionista do mundo.  

No susto da Grande Depressão dos anos 30 do século passado, a boca torta revelou o uso do cachimbo protecionista: a lei americana Smoot-Hawley elevou brutalmente as tarifas. Em seguida, a Inglaterra abandonou o padrão-ouro em 1931, os Estados Unidos caem fora em 1993. 

As tarifas e as desvalorizações competitivas produziram uma brutal contração do comércio internacional. A deflação de preços das commodities e produtos industrializados comprovou o óbvio: se todos tentam desvalorizar, ninguém consegue, ainda que alguns consigam mais que os outros. 

Na ausência de uma coordenação global, a tentativa (racional) de defender o mercado doméstico dos efeitos da queda do volume de comércio culmina no prejuízo geral e irrestrito. Em sua essência, as reações protecionistas são antes de tudo políticas, no sentido de que respondem às pressões internas nascidas do desemprego e da queda dos rendimentos das famílias. É fácil pedir grandeza de espírito e generosidade a Trump Difícil é combinar com os americanos desempregados.

*Economista da Unicamp



Tags: artigo, beluzzo, china, donald, eua

Compartilhe: