Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Domingo passado chuviscou...

Jornal do Brasil Ruy Guerra

Sabem como é. A caatinga tem sede. As suas arvores espinhentas têm sede, seus mandacarus e xiquexiques, sua erva queimada, seus rios secos, seus bichos, sua gente. Até as pedras têm sede. Uma sede antiga, teimosa, que machuca. Mata. 

A seca na caatinga é anúncio soturno do fim do mundo. 

Coisa do Cão. 

É quando, sem quê nem porquê, acontece. Chove. A bem dizer, pinga ou pouco mais. Chove chuva chuverando...

Sabe como é isso? 

Vindo de não se sabe onde, dos confins do desespero, num fim de dia inesperado, gotas, quase orvalho mas água, vinda das alturas. Talvez seja São José, santo encarregado das chuvas que voltou ao batente; talvez seja  bico duro de carcará raivoso, de goela seca, furando alguma nuvem gorda, coisa pouca... Mas o povão sabe que a cavalo dado não se olha o dente! 

Uma simples noite de migalhas de água e o sertão à mingua de vida acorda um tapete verde. 

Quem duvida do que digo  está mal informado ou tem às  de paus na manga . Juro e trejuro. A seca começa a se enforcar nas próprias tripas. A espinha do sertanejo se apruma e o seu olhar volta a brilhar, pronto para o próximo futuro. Malafortunadamente, o futuro próximo é a próxima seca. 

Aqui no Sul Maravilha a seca... não tem! Não, cara pálida? 

O nosso Rio de Janeiro faz tempo, põe anos nisso, tá enfrentando a sua própria seca. Uma seca de caraterísticas próprias, mas tão ou mais devastadora do que a nordestina. Uma seca  terrível para cidadão nenhum botar defeito. (Leia a  frase anterior com atenção, parceiro: diz o contrário do que pode parecer). E quando digo seca, incluo o seu cortejo de horrores. 

Para negar isso só cara de pau que vive em Miami, em Fisher Island ou quejandos, comendo do bom e bebendo do melhor, investindo em negócios altos dinheiros, vindos sabe-se lá de onde! Sabe-se lá de onde? Eu sei e você sabe... ( já que a vida quis assim, teus versos Vina, se imiscuíram, a despropósito, mas benvindos)... e ousaria adiantar: quem não sabe por estes brasis? 

Você discorda? 

Então vamos dar os nome aos bois: Vou fazer algumas citações e de bate pronto, veja o primeiro nome que lhe vem à cabeça.  Não diga  em voz alta para não emporcalhar muito a prosa : 

Mala de dinheiro? Guardanapos em Paris? Conversa em garagem de Brasília? Folguinha? Gravador? Balsa família (balsa, Terezinha, eu disse balsa)? 1,2 bilhões corrigidos mais de 6 bi? Patinhos amarelos? Vidas Secas? (não vale o Nelson Pereira, parabéns pelos próximos 90 anos, parceiro!), Carne fraca? Auxilio moradia?...e chega, por ora.  O espaço de que disponho aqui é pouco e precioso . 

Duro, né? Deu uma certa náusea? Enjoou de verdade? Vomitou? Foi mais além: palpitação, tontura, tentativa de suicídio, diarreia, sufoco, convulsões? Corra para a farmácia da esquina e auto medique-se, se vire, por que em matéria de saúde você está só no mundo! Não apenas nisso: em matéria de saúde também, não me façam dizer o que não disse! 

E agora, deu para sentir o tamanho da seca carioca e nacional ? Precisamos de chuva, muita chuva, diria mesmo que um dilúvio seria bem vindo (com bueiros e esgotos desentupidos) para a caatinga urbana florescer. Para amordaçar o Cão, chutar-lhe as costelas e devolve-lo à fornalha. Quarenta mil gotas de chuva caíram na madrugada do último domingo nas ruas do Rio e a população saiu eufórica às ruas e bebeu toda a edição do JB até às onze horas da manhã, festejando o despontar de grama no asfalto - promessa de que chuva, forte, transformadora, está a caminho. Letra a letra, sílaba por sílaba. Agora, urgente, soletrando a palavra E-L- E- I- Ç- Ã- O!

Ruy Guerra é cineasta



Tags: artigo, chuva, cineasta, rio, seca

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