Jornal do Brasil

Segunda-feira, 18 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Analgésico carioca

Jornal do Brasil Alfredo Sirkis

A participação militar na segurança do Rio não constitui exatamente uma novidade. É recorrente desde os anos 90. Em várias ocasiões o tiro saiu pela culatra. Em uma delas deu certo, por uns tempos, na sequência de operações que culminaram com a expulsão do tráfico do Complexo do Alemão e a primeira fase das UPP. Os militares atuaram como apoio a polícias estaduais, motivadas, numa operação com amplo apoio social e de mídia e que durante algum tempo faz recuar o controle territorial da bandidagem sobre uma parte das favelas. Acabou fracassando porque não foi acompanhada por uma profunda reforma das polícias com o fim das “escalas de serviço”, porque a política de drogas se manteve a mesma e porque a governança do estado logo acabou em colapso nos desvãos  da cleptocracia cabralina e da crise nacional que produziu a completa desmoralização da autoridade. Agora, não é mais uma intervenção “em apoio à”, mas um empoderamento do Exército por sobre a segurança do estado do Rio.

É de um total desamor pelo Rio querer tirar uma “casquinha” política da situação, seja à direita, ou à esquerda. Não tem cabimento querer privar a operação da possibilidade de revistar domicílios numa área territorial determinada nem enviar fotos por celular para bancos de dados para poder identificar se uma pessoa está sendo procurada. O problema não está aí, mas sim numa política de drogas absurda que coloca o esquema policial em permanente tensão com um amplo setor da juventude, quando deveria estar focado no crime armado e violento, organizado ou não. Em curto prazo, as ações mais ostensivas, podem surtir certo efeito. A presença esporádica do Exército nas ruas, que a PM, por força de sua escala de serviço e da sua total desmoralização, já não assegurava, inibe um pouco aquela criminalidade que mais ameaça a população de imediato, o “crime desorganizado”: assaltantes periféricos aos núcleos  duros do tráfico, pivetes, meliantes de oportunidade.  Isso não deve ser subestimado porque uma pessoa tem muito mais chance de ser assassinada, na rua ou em casa, por um desses pés-de-chinelo do que por um bandido experiente de uma das facções de tráfico. Ocupar militarmente o espaço público que nossa PM “de bico”, desfalcada de contingente, não consegue mais, traz efeito psicológico positivo.  

O problema está na continuidade quando se começa a bulir com aquelas questões mais estruturais e, aparentemente “insolúveis”: a polícia “de bico” com sua escala de serviço com um policial militar, na prática, trabalhando na corporação duas vezes por semana e o policial civil uma. A ausência de um amplo patrulhamento a pé da cidade. Nossas polícias são minadas por uma corrupção histórica, institucionalizada, e pelo “arreglo” com as facções do tráfico. O resultado prático da política de drogas é oferecer uma logística inesgotável ao bandidismo armado que administra pela violência essa enorme economia, altamente corruptora. O efeito indireto é muito pior do que aquele das substâncias químicas que oferece um mercado que sempre existiu e existirá. 

Um general do exército estaria mais bem preparado para enfrentar essas quadraturas do círculo do que um coronel da PM ou um delgado de polícia? A princípio, pode se dizer que as estruturas militares não foram corrompidas pelo “arreglo” como as policiais. Seus comandantes não devem favores e não tem vínculos corporativos que os inibam de requisitar o contingente absurdo “à disposição” do legislativo, judiciário, de licença ou atrás da escrivaninha. Não tem a mesma dificuldade em investigar e punir embora pela força da situação e escala do fenômeno tenham que fazer isso de forma inteligente e seletiva.  Nada garante o efeito corruptor dessa economia subterrânea não possa vicejar também nos quartéis.

A “guerra às drogas” não deu certo em país algum, impossível de ganhar. O restabelecimento do controle territorial e do monopólio do estado sobre o armamento de guerra e uma maior segurança nas ruas e nas residências é difícil, nas atuais circunstâncias, mas teoricamente viável se profundas mudanças ocorrerem. Elas são complicadas, caras e difíceis. Sem governabilidade nem governança, sem confiança da população nas instituições públicas, nem nela própria, sem o fim do estúpido proibicionismo das drogas que só potencializa o crime e super povoa o sistema prisional, sem uma polícia de dedicação exclusiva, patrulhamento extensivo a pé, fim do controle territorial das facções sobre as favelas e políticas econômicas e sociais que devolvam um mínimo de otimismo e esperança, continuaremos afundados numa entropia sem fim e a intervenção terá simplesmente efeito analgésico.

*Escritor e jornalista



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