Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Não é não

Jornal do Brasil Maitê Proença

Em conversa com uma amiga de 21 anos, ouvi dela, “não gosto mais de homens, desconfio deles.  Perguntei se todos.  Ela disse que sim, que não conhece quem fuja à regra do abuso, da agressividade, da vasta incompreensão sobre o que é ser mulher nos dias de hoje. 

Existem temas atemporais que são tratados de forma distinta nas diferentes épocas.  Foram e seguem sendo importantes dentro das circunstâncias, variáveis. É o caso da liberdade da mulher.  As mulheres do mundo todo continuam vulneráveis como eram há 20, há dez e há seis séculos, porque não têm independência econômica e são constantemente ameaçadas por exploração, violência, e abuso sexual.  Segundo estatísticas as  mulheres fazem dois terços do trabalho do mundo mas possuem menos do 1% das propriedades. Negam-lhes educação, liberdade e reconhecimento.  São estupradas, espancadas, e às vezes mortas com impunidade. Foi assim na Idade Média e continua assim, não apenas na África ou em países árabes, mas também aqui, na vizinhança de nossas casas. 

A Mulher de Bath, que ora enceno no teatro, e que trarei para o Rio daqui a um mês, é um texto de 1380, extraído dos Contos da Cantuária, um dos clássicos da literatura mundial.  Esta história sobrevive há seis séculos, por sua singularidade e beleza, mas sobretudo, porque um homem livre, audacioso, e brilhante, o colocou na boca de uma mulher. Geoffrey Chaucer, um dos totens da literatura inglesa, deu voz à primeira feminista - uma mulher libertária, articulada, e solta - em plena era medieval.

Sem papas na língua, sem auto piedade, e sem medo, Alice nos fala as coisas como elas são. Descreve a menina de doze anos, que, mimada e mentirosa trapaceia e joga pra conseguir o que quer dos homens, e conta da mulher madura que é espancada e humilhada, mas ainda faz concessões pra se salvar e safar de sua condição opressiva.  Assim era e continua sendo, muitas vezes, a conduta das mulheres, pela fragilidade de suas circunstâncias. Ou somos todas dignas e imaculadas exploradas por brutos?  Ainda que adore os homens e o sexo, a Mulher de Bath critica-lhes a ignorância e os métodos com ferocidade, mas não deixa de revelar os truques e artimanhas que emprega no alcance de seus propósitos. E essas contradições realçam, a meu ver, a força do texto. 

O conto é progressista ainda hoje, porque, depois de a tudo expor sem hipocrisias, a ideia e a moral de sua história, apontam numa direção: a mulher, quando soberana, divide o poder com os seus parceiros.  Movida por um humor visceral, Alice sugere que o comando nas mãos da mulher não leva à guerra, ou submissão, mas ao bem estar comum. 

É preciso humor e persistência para mover montanhas. Só assim o que é velho e empedrado se dissolverá.  Fico assustada ao perceber uma mulher, em início da vida adulta, com repugnância por nossas metades mais animais. Ops, brincadeira. Somos todos animais, digo, todos iguais, ainda que uns sejam mais iguais que outros, como já disse alguém... 

Agora sério.  Amiga, eles são maus mas são bons, estão fadados ao que são.  Foram criados desta forma por seus pais, mas também por suas mães, que, omissas, colaboraram com a ignorância sobre o que é uma mulher. O que falta ao mundo hoje são mulheres no topo das escadas. Há um desequilíbrio de gêneros no sistema, é um problema de saúde pública.  E é preciso contar e contar as histórias que todas sofremos, botar a boca no mundo.  Devemos ensinar os homens a verem o que lhes foi negado. Mas não será a fórceps. Claro: não é não, e chega pra lá.  Mas posto isso, usemos de nossos métodos, mais sutis e generosos.  Sugiro a elegância, a astúcia, e a persistência firme na cura dessa chaga que machuca desde que os homens inventaram Eva, a perversa, que a tudo amaldiçoou. (Ah se fossem as mulheres a escrever a história...) 

E dê de presente ao seu rapaz o conto de A Mulher de Bath.  Pode ser um bom começo.

 *Atriz



Tags: artigo, jb, maitê, não, proença

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