Jornal do Brasil

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Antonio Campos

Octavio Paz

Nobel de Literatura de 1990 e um dosmaiores poetas e pensadores da América Latina

Antônio Campos

Este ano é o do centenário do nascimento de Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura de 1990 e um dos maiores poetas e pensadores da América Latina.

Fundou revistas, traduziu obras de diferentes nacionalidades, ministrou cursos e conferências nos EUA, foi diplomata, defendeu causas humanitárias, cultivou polêmicas. Foi um escritor que viveu sob o signo da pluralidade, percorrendo com extrema competência vários gêneros da criação literária, sempre à margem dos teoreticismos. Aquela pluralidade cultural sobre a qual nos fala Zygmunt Bauman nos Ensaios sobre o conceito de cultura. Seria agora uma oportunidade para relembrar a paixão que Paz tinha pelo Brasil, visitando o país várias vezes, algumas anunciadas pelas mídias, festejadas nos meios acadêmicos, sendo esperado por todos; outras vezes sem ninguém a espera-lo em salas vips, queria ser um desses visitantes sem compromissos oficiais, era um hóspede como qualquer outro. Dizia-se feliz no Brasil, sentindo o gosto de saudade quando voltava ao México. Disso dariam testemunho seus amigos brasileiros, os pernambucanos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, além de Murilo Mendes, Haroldo de Campos e seus companheiros do movimento concretista. Octavio identificou-se muito com o esse movimento. Tinha perfeita noção da importância da literatura brasileira, das mutações culturais que atravessavam o Brasil que ele viu de perto. Uma literatura que se afirmava aos olhos de Octavio Paz como sendo  mais do que literatura, porque apontava para múltiplas esferas de criatividade. Uma literatura que não deixaria de revelar, para ele, uma vigência muito forte no quadro geral da Poesia e da Ficção, possuidora de fisionomia própria.

Como teórico da literatura, havia em Paz um analista profundo e independente, corajosamente conservador e, paradoxalmente, de vanguarda, que levava suas reflexões para além dos ideologismos e dogmatismos de moda. Foi contra qualquer forma de autoritarismo de esquerda ou de direita. A imprensa mexicana estava amordaçada pela ditadura. Como poeta, Octavio Paz deixou uma marca indelével, incorporando muitos procedimentos surrealistas à sua poesia, à sua maneira de pensar. Há na sua poesia um desejo de transcendência.

Ouvi, no Rio de Janeiro, de Mário Vargas Llosa, há cerca de um ano e meio, numa reunião da qual participamos como convidados palestrantes, ele e eu, este julgamento: Não existe hoje no mundo de fala espanhola ninguém capaz de preencher o vazio que Octavio Paz deixou.

*Antônio Campos é advogado e escritor.

Tags: centenário, conceitos de cultura, literatura, pluralidade cultural, prêmio nobel

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