Jornal do Brasil

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Antonio Campos

Múltiplo Leminski

Antonio Campos

Foi com alegria e emoção que vi a mostra Múltiplo Leminski, comemorativa dos 70 anos de nascimento do já falecido Paulo Leminski,  no Espaço Cultural Torre de Malakof, no bairro do Recife Antigo. O dia 24 de agosto está quase chegando,vamos ter justo motivo para celebrar esse mestiço de pai polonês e de mãe negra,um modelo (reeditado) de Thomas Mann com a mãe brasileira de Paraty; de Burle Marx, filho de um alemão  de Berlim com a mãe pernambucana do bairro de Casa Forte. Este é o ano deLeminski, poeta,músico e compositor, as suas muitas vidasvividas intensamente numa só existência tão curta,ele que foicriadorde um conjunto de obras,exibidas à luz do seu tempo,de marcante qualidade criativa na literatura brasileira de três décadas. 

Não é difícil surpreender a qualidade da poesia e do texto ensaístico de Leminski, havia nele a espontaneidade da criação, talvez o mais difícil mecanismo da expressão literária, seja do culto ao popular, por onde percorria( nos reflexos da criação) com notória competência, seja nas suas ousadas experiências no campo do erudito. O exame da melhor poesia brasileira dos últimos passa por Paulo Leminski. 

Teria de ser, como João Guimarães, sem perder a sua comunicabilidade,(mesmo quando ousava experimentar as “artesanias” da palavra,) um profundo conhecedor de línguas, lendono original e traduzindo  os seus autores preferidos da Grécia, da França, e estudando com o mesmo entusiasmo o Latim. Por sua formação intelectual, quis ser compositor, tornando-se parceiro de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Régis Bonvicino, Moraes Moreira, José Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes,  Jorge Mautner, entre outros.O grande Mautner, que se tornou mais conhecido depois de um premiado  curta feito sobre ele por Pedro Bial. (Um dos sucessos do Festival de Cinema/Recife em 2012). Era essencialmente um inquieto e  intransigente na qualidade do que construía, que está à mostra nas sobrevivências do tempo. Tudo nele era desejo de linguagem, ultrapassagem de limites,fácil de ler, fácil de ser guardado. Teria de ser  faixa preta de Judô, como o  foi, durante anos. Mas você já se perguntou o que seria para Leminski, poeta em luta corporal com a palavra,conquistar essa categoria?  O que é  necessário para ser dono de uma faixa preta do judô? Creio que a primeira resposta dele seria : disciplina parafazer corretamente os kata. Por isso, o domínio do corpo e da mente, tanto de quem projeta o oponente (tori), quanto de quem é projetado (uke), é indispensável.A imposição da queda (ukemi) ao projetado leva-o a aprimorar esse fundamento de suma importância. Afinal de contas, quanto menos medo de cair tiver o judoca (o que só se consegue com o domínio da técnica do ukemi), maiores são as chances de que ele desenvolva suas técnicas de projeção, de ataque, no randori. A poesia de Leminski, o timbre dos seus contornos, a multivisão que ele tinha da vida e da existência, é feita sem medo de cair, com os atributos da disciplina, dedicação e concentração. A ousadia era a sua marca primordial. Até quando houve nele o reverso da medalha, tornando-se colaborador de jornais e revistas marginais,pareceu-me existir nos seus textos a vontade das arriscadas distâncias e descobertas. Um amor arrebatado pelas contínuas transformações. Ou seja, um jogo que tinha muito a ver com o seu esporte predileto.

A mostra é distribuída em diversos espaços cênicos, intitulados "Linha da Vida e Obra", "Poesia", "Música", "Prosa", "Catatau", "Tradução", "Biografia", "HQs", "Haikaista e Judoca", "Publicidade", "Jornalista", "Professor", "Escritório" e "Biblioteca". Vale a pena visitar a exposição e ler a poesia desse grande artista.

Antônio Campos - Advogado e Escritor

Tags: antônio, Artigo, Campos, coluna, frevo, JB

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