Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Antonio Campos

Paço do Frevo

O turista de bom gosto, uma categoria que está crescendo, aqueles de consciência tranquila e exigentes na escolha de lugares enriquecedores e marcantes, os viajantes que estão fora da lista dos que gastaram, em 2013, US$ 25 bilhões (Embratur)  fora do Brasil, portanto, os turistas diferentes e interessados somente no desigual e no incomum, aqueles não gastadores mas interessados no que deve enriquecer o seu olhar, terá no Recife mais uma motivação cultural à sua espera. Refiro-me ao Paço do Frevo, inaugurado recentemente. O espaço reúne o que as escolas europeias de turismo e hospitalidade chamam de singularidade, o que o turista exigente mais deseja nos seus destinos. O Paço do Frevo preenche essa categoria, que faz parte também das minhas opções, quando sou levado a conhecer outros lugares, não como turista convencional, fora dos roteiros meramente promocionais, mas um talvez viajante  e seu intimo miradouro com a preocupação de olhar, sem a pressa que é inimiga da reflexão. (Às vezes, até o jogo do sol nas folhagens da árvore, cujo exemplar só existe em raros lugares, como a que vi nos arredores de Atenas, a flor nascendo no arroubo da impaciência). 

O Paço do Frevo reúne parte do que eu gostaria de mostrar, o olhar para o Recife e suas inventivas motivações, sentindo-me à vontade, ao tipo de turista que descrevo nesta crônica. Um espaço inadiável e insubstituível, porque é único. É claro que temos dezenas de outras opções e escolhas já catalogadas por nossos cronistas da cidade, como museus, galerias de arte, centros de artesanatos, gastronomia, sem esquecer outro espaço tão para mim singular e mágico como o de Francisco Brennand, artista que tanto admiro.  As cores do Senhor da Várzea, a sua profusão de detalhes e levezas, serão as cores do frevo, dois fervorosos cenários de destrezas, figurações, equilíbrios, transformação de corpos.  O frevo com gestos de tesouras, parafuso, pontilhado, ponta de pé e calcanhar, Saci-Pererê, abanando, caindo-nas-molas e pernada, ferrolhos, parafusos, dobradiças e locomotivas. Coreografias de tirar o fôlego, arte de descobrir o próprio corpo e tudo que ele é capaz. 

Além de ser um espaço democrático e de convívio com uma expressão musical e folclórica essencialmente pernambucana e tão recifense, a essência de sua beleza está reunida nesse conjunto de salas. O frevo, a dança dos valentões, livre de qualquer influência. Com todo respeito a Foucault, não ouso discordar dele,  quando nos diz que uma prática cultural é impossível de ser encontrada ou demarcada no tempo e no espaço, posto que estas sejam permeadas de várias outras contribuições que á prática vão sendo somadas. O frevo é do Recife.  O autor de Arqueologia do saber nos daria razão. O Paço do Frevo exibe a história desse ritmo carnavalesco, enquanto música e dança seus gingados, malabarismos, rodopios, passinhos miúdos e muitos outros passos complicados.   Todo um vasto painel de memória, imagens ricas e dinâmicas, documentos, retratos, partituras, recordações e marcas desse gênero de dança e música. Além de uma escola voltada para a preservação e difusão desse estilo musical, há uma iconografia que nos deixa incapaz de conter a admiração por essa manifestação que se tornou patrimônio cultural imaterial do Brasil e da humanidade, fomentando a economia criativa. Pernambuco está de parabéns pela criação desse espaço. 

Antônio Campos - Advogado, Escritor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto - e-mail: camposad@camposadvogados.com.br

Tags: antônio, Artigo, Campos, coluna, frevo, JB

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