A esperança vem dos jovens
A União Nacional dos Estudantes (UNE), representando a classe jovem brasileira, entrou na luta pelos esclarecimentos dos crimes cometidos durante a ditadura militar. A instituição, que tanto sofreu com inúmeras perdas de dirigentes durante o período, agora conta com a sua própria Comissão da Verdade e irá apurar os desaparecimentos e crimes cometidos contra estudantes na época.
A princípio, serão investigados 46 desaparecimentos, como o caso de Honestino Guimarães, ex-presidente da entidade, desaparecido em 1973. É de se registrar que as primeiras vítimas da ditadura foram dois estudantes pernambucanos chamados Jonas Albuquerque e Ivan Aguiar.
A UNE, mediante a sua importância social e histórica para o nosso país, não poderia ficar de fora dessa luta. Uma grande demonstração de que a esperança vem dos jovens. Eles que irão buscar a justiça pelo passado, viver o presente, e honrar o futuro, carregando na memória experiências adquiridas após muita luta. É onde está a força do nosso país, ainda tão mergulhado em corrupção e impunidade.
Em paralelo a essa criação, o exemplar exercício da Comissão da Memória e da Verdade Dom Helder Câmara de Pernambuco, apurando, desde junho de 2012, e com presteza e ética, os casos ocorridos no Estado de Pernambuco. O Rio de Janeiro sequer instalou ainda a sua comissão da verdade. As investigações do grupo terão dois anos para serem concluídas e serão analisados dez desaparecimentos, 39 mortes e mais de 100 casos de tortura.
A Comissão Nacional da Verdade, por sua vez, preocupa a todos que buscam o resgate da memória e justiça para as vítimas da ditadura. Em um ritmo lento, se reúnem pouco, as decisões exigem unanimidade, o que retarda, ainda mais, o trâmite, e ainda não houve a criação de uma grande agenda com o país. A esperança é que, inspirados nos nossos jovens e nas comissões estaduais, os seus integrantes percebam melhor a importância desta luta para o Brasil.
No livro “A Comissão Nacional da Verdade e a Operação Condor”, levo a público a representação que fiz, em nome do Instituto Miguel Arraes, importante testemunha da Operação Condor, perante a Comissão Nacional, para investigar a existência da Operação Condor no Brasil. A investigação foi aberta, mas não tem tido um roteiro amplo e objetivo sobre este caso tão importante. Incrivelmente, embora convidada, não mandou sequer observador para o Seminário Internacional sobre a Operação Condor, organizado pela deputada Luíza Erundina, no Congresso Nacional.
Em audiência perante a Comissão, registrei tal equívoco e omissão. Preocupa várias entidades de defesa dos Direitos Humanos a impressão de que a Comissão Nacional da Verdade colocou como dogma a anistia aos que torturaram e sequestraram vítimas da ditadura, diante da decisão do Supremo, que ainda está sob recurso. Tal decisão contraria tratados internacionais assinados pelo Brasil. Lutaremos até o fim pela revisão de tal postura e levaremos o caso, se necessário, à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
As memórias, que nunca serão esquecidas, precisam ser honradas e, para isso, é preciso fazer justiça, em respeito às inúmeras pessoas que lutaram pela democracia. Não resgatar amplamente o acontecimento dos desaparecimentos, mortes e torturas é, também, se acovardar diante dos homens vivos e livres. Como diria Affonso Romano, em “Os desaparecidos”: “[...] Não há cova funda que sepulte a rasa covardia/Não há túmulo que oculte os frutos da rebeldia”.
Antônio Campos, advogado, conselheiro Federal da OAB, escritor, editor, membro da Academia Pernambucana de Letras, curador da Fliporto e presidente do Instituto Miguel Arraes.
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