Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Antonio Campos

Poeta Marcus Accioly comemora 70 anos

Jornal do BrasilAntonio Campos

Marcus Accioly é essencialmente poeta. Um grande nome da nossa poesia. Nascido em Aliança, em 1943, é integrante da Geração 65. Atualmente, ocupa a cadeira 19 da Academia Pernambucana de Letras (APL), deixada por João Cabral de Melo Neto. Além disso, é graduado em Direito e pós-graduado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) e professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na UFPE. Atualmente, preside o Conselho Estadual de Cultura.

A sua poesia foi lançada pelo poeta César Leal, no Suplemento literário do jornal Diário de Pernambuco. A importância do trabalho dele para a literatura brasileira tornou-se, então, indiscutível e incomparável. Com mais de 10 obras publicadas, Marcus Accioly, que este ano completa 70 anos, no próximo dia 21 de janeiro, fala sobre o Nordeste, a América Latina, entre outras temáticas. Ao longo da sua carreira, ganhou diversas premiações, como o prêmio “Mário de Andrade” e “Olavo Bilac”, da Academia Brasileira de Letras (ABL), entre outros, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, da Associação Paulista de Críticos de Arte e da União Brasileira de Escritores.

“Cancioneiro”, “Xilografia”, “Latinoamérica”, “Ó(de)Itabira”, “Poética”, “Narciso”, “Sísifo”, “Íxion”, “O Exílio da Canção”, “Guriatã” e “Érato” são alguns dos livros de Marcus Accioly. Um exímio poeta da língua portuguesa. Prestes a completar sete décadas de vida e continua a exercer o seu dom literário e a nos presentear com obras riquíssimas. Esta é uma breve homenagem a Marcus Accioly por tudo que ele produziu, viveu e compartilhou conosco até hoje.

Fiz até aqui uma breve notícia para os novos leitores que não tiveram ainda acesso à obra desse poeta, e agora quero dizer que Marcus Accioly se destaca pelos grandes desafios formais, dentro de um estilo literário raramente ousado no seu tempo brasileiro: o épico. Entre os da sua geração, não só pernambucana do Recife, como do resto do país, ninguém foi mais ousado, sem resvalar para o experimentalismo inconsequente que foi moda, do que o autor de Sísifo, (1976) um longo poema em 10 cantos, obra poética que parece ter vocação de perenidade. Chego a pensar que o desafio do poeta não se voltou apenas para o seu grande tema inspirador. A audácia daquele vulto grego, condenado a empurrar eternamente, ladeira acima, uma pedra que rolava de novo ao atingir o topo de uma colina, (e como é bela uma outra  Odisséia, a de Homero!), foi inspiradora de um longo poema pernambucano que desafia agudas reflexões de leitura e de crítica, tendo sido objeto de exegese de alguns críticos literários de maior importância, dentro e fora do Brasil, como  Saulo Neiva e  Wilson Martins.

Partindo do mundo homérico e do talvez mais difícil estilo literário que se conhece no campo da Literatura, esse autor pernambucano não cessou mais o seu desafio de produzir uma poesia que resgata na literatura de expressão portuguesa, uma forma que raros, em qualquer época, neste país, ousaram tanto quanto ele, sem deixar de preservar a sua relação com o leitor. 

Na obra do divino grego há uma ausência de vida interior dos heróis, observada pelo mestre também pernambucano, que tanto admiro, Luiz Costa Lima (HISTÓRIA, FICÇÃO E LITERATURA), - admiro-o não apenas pela sua erudição ensaística, mas, também, somando tudo, por sua coerência intelectual - num período brasileiro de muitas trevas e medos. No SÍsifo de Marcus Accioly, como no Narciso; no Íxion, no Erato, eno Latinoamérica os figurantes são ansiosos de vida interior, envolvidos de contingências plenificadoras. Este é um diferencial até agora não devidamente vislumbrado na poética maior desse autor cioso do valor das metáforas, um fervoroso domador de palavras. 

Nos vultos da epopeia de Accioly, no corpus de sua obra, os mitos recuperam a vida. Mas, a reconstrução de seus protagonistas, no conjunto da sua obra aqui denominada épica e suas escolhas estróficas, se dá através de uma alquimia inusitada de palavras nutridas pelo instinto da descoberta, do indizível. Nosso poeta é um contemplador, ele contempla perenidade a um estilo de expressão poética para muitos e para sempre extinto. Uma grande mentira, porque a organicidade que governa o épico exige fôlego e competência, não é oficio para os não iniciados nos enigmas da palavra. Mentem os que não têm esse (raríssimo) dom. O autor não nos dá apenas um genuíno nexo de continuidade ao épico, ele renova certas estruturas do estilo. Ele tem sido nestes 70 anos de vida o seu próprio Sísifo, este Sísifo indormido (e incansável) que devemos todos imitar, carregando as nossas rochas, mesmo que sejam íngremes as veredas e caminhos, e longos o seu vagar. Não importa que estas rochas nos levem ao Tiger’s Nest, mosteiro do Butão, o mais belo de todos os mosteiros que ouço falar, feito em um precipício de 2300 pés acima do mar, onde seus monges estão agora relendo a epopeia grega inspiradora da poesia de extensão continental de Marcus Accioly.

Que seja longa a vida desse grande poeta épico brasileiro, não apenas um telúrico andarilho, mas um poeta que sabe de montanhas e trilhas íngremes.   

 

Antônio Campos, advogado, escritor, editor, membro da Academia Pernambucana de Letras e curador geral da Fliporto

camposad@camposadvogados.com.br

 

Tags: antônio, Campos, coluna, poeta, quarta

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