A crise da pós-utopia
Belo artigo o de Arnaldo Jabor intitulado “O imperador, o filósofo e eu”. Texto este baseado em um ensaio do poeta russo Josef Brodsky, nobel de literatura, acerca do livro “Meditações”, do imperador romano Marco Aurélio. E diz: “Se as Meditações são as antiguidades, nós é que estamos em ruínas”.
Uma vida breve, cheia de pânicos, receios, assustada com o presente. A intensa nostalgia de um passado perfeito, frequentemente, tem nos trazido frustração e amargura com a atualidade, ou seja, vivemos em uma verdadeira crise da pós-utopia. De maneira evidente, os tempos presentes se repetem e, em todos, aparece o semelhante sentimento da saudade utópica do passado. No entanto, o outro lado da moeda mostra uma face que poucos podem, e conseguem, enxergar: a breviedade da vida, que, portanto, não permite tantas lamentações mas, sim, uma maneira intensa e bem aproveitada de vivê-la. No latim, “Carpe Diem” – saibamos aproveitar o momento atual.
Em contraposição aos que vivem do passado, há os que temem o futuro. O medo da morte aflige um grande contingente de seres humanos, apavorados com a certeza de que vivemos uma vida finita. Eis, portanto, outro motivo para menos utopia e mais vivência do presente. Uma doutrina filosófica chamada Estoicismo difunde uma ideia semelhante. Diferente do que muitos pensam, ela não defende a resignação e, até mesmo, o pessimismo. Os estóicos acreditam na teoria da serenidade melancólica, ou seja, em um tipo de aceitação da realidade que permite saber aproveitá-la dentro das suas limitações.
Viver e conviver, assim como hastear as bandeiras da justiça, da ética e da bondade, juntos, farão do presente um tempo de melhor digestão social. O imperador romano Marco Aurélio dizia: “A mais nobre forma de retribuição é não ser como o seu inimigo”. Trazendo para o lado coletivo, “O que não é bom para a colmeia, não é bom para a abelha”. E, assim, com curtas, porém, impactantes, frases, o imperador, há mais de 20 séculos, eternizava ensinamentos e pensamentos que nos ensinam, até os dias atuais, a sobreviver a essa crise pós-utopia que, por vezes, nos cega, limitando a nossa visão e o alcance dos nossos planos e sonhos.
