Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Antonio Campos

A nova mulher árabe

Jornal do BrasilAntonio Campos 

Uma árabe enfurecida. Assim se auto-denomina a escritora libanesa Joumana Haddad, uma das atrações da Fliporto 2011. Ela, que no Congresso Literário esteve em conversa em uma mesa com o jornalista Silio Boccanera, veio para a cidade de Olinda não apenas para o lançamento do seu excelente livro intitulado “Eu Matei Sherazade – Confissões de uma árabe enfurecida”, mas, também, para apresentar ao público uma nova mulher árabe, além dos clichês e estereótipos que marcam as mulheres por trás das burcas e véus.

 Joumana, já no sumário do seu livro, que, por sinal, não é vendido em nenhum país da sua região, mostra a que veio com os títulos dos capítulos da sua obra. “Uma mulher árabe lê o Marquês de Sade”, “Uma mulher árabe escreve poesia erótica”, “Uma mulher árabe sem medo de provocar Alá”, entre outros. Em um capítulo destinado à sua autobiografia, Joumana, em um belíssimo poema, se define: “Sou o que dizem para eu não dizer/não sonhar/ não ousar/ não pegar./ Sou o que me dizem para eu não ser/ sou o que escondo,/ o que não quero esconder, mas escondo./ e o que quero esconder, e não escondo”.  E, assim, ela vai matando Sherazade, a heroína de “As mil e umas noites”, e rejeitando todo e qualquer tipo de submissão e opressão.

 Furiosa, revolucionária e sensual, a poetisa libanesa, em entrevista, comparou a condição de usar burca, no Oriente, com a de “se tratada como um pedaço de carne”, no Ocidente. Além disso, durante a mesa imperdível na Festa Literária, ela representou o pós-feminismo e abominou o patriarcalismo, dizendo: “Não condeno os homens, mas o sistema do patriarcalismo. Condeno, sim, homens e mulheres que apoiam o sistema patriarcal”.

Com palavras e atitudes, a vinda da escritora Joumana Haddad à Fliporto, que se disse encantada com o evento e, além disso, ressaltou que “acha que fez a melhor apresentação entre os muitos festivais literários de que costuma participar por vários cantos do mundo”, deu um banho de muita cultura, conhecimento, e uma nova perspectiva sob um tema polêmico, seduzindo todos a uma importante reflexão sobre o exercício de ser mulher no mundo oriental e ocidental.

Tags: antônio campos, coluna, JB, joumana haddad, literatura, Oriente

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