Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Anna Ramalho

A tristeza toma conta do Rio de Janeiro

Estou chegando do tristíssimo velório da Tintim Mascarenhas. Não fomos íntimas amigas, mas foram inúmeras e sempre muito agradáveis as vezes em que estivemos juntas – no Guimas, em festas, em reuniões de amigos, além de eu ter sido colega de colégio de sua irmã Maitódesde que éramos garotas de 10 anos. Tintim era um ser gregário, solar, de bem com a vida. Era também uma mãezona, uma avozona e um mulheraço para o Chico, com quem por mais de 40 anos, dividiu a vida com suas alegrias e tristezas, perdas e ganhos. Cortava o coração ver o Chico e suas filhas. Arrasador ver a mãe dela, 88 anos, revivendo o que aconteceu com o marido há 30 anos – ele vítima, também, de assalto seguido de morte. D. Maria Alice, em lembrança quase sobrenatural, recordava que a filha morreu com mesma idade do pai e no mesmo dia da semana.

O pesar, no Memorial do Carmo, era quase palpável. Jornalistas, artistas, políticos, empresários, gente das mais diversas faixas etárias, compartilhavam, além da tristeza profunda, a sensação de espanto, de choque, de revolta. E de medo, muito medo. O sentimento é o de que estamos abandonados à nossa própria sorte.

Fora Deus, para quem crê, como eu, não há quem olhe por nós. O Estado tem se revelado absolutamente inútil. Em dias como o de hoje, tenho a sensação de que só andamos pra trás.  No momento, além da inflação que agonia, do desemprego que se anuncia, voltamos a um patamar de violência que já vivemos e tolamente achamos que havíamos superado. Vivemos ao deus-dará, abandonados à nossa própria sorte, enquanto a bandidagem faz a festa. Bandidagem dos marginais do asfalto e dos marginais de terno e gravata.

O disparo deste assassino que tem tudo para seguir impune – ou, se apanhado, ganhar a liberdade ao fim de 3 ou 4 anos – despedaçou uma família feliz. Os cacos poderão ser juntados, algum dia, mas o remendo será para sempre visível. Uma tragédia, um horror verdadeiro.

Descanse em paz, Tintim. Que você não seja mais um mártir da violência a morrer em vão.

***

A paz da eternidade, também, para o grande João Ubaldo Ribeiro, um escritor que não precisaria do fardão para ser imortal.

Para mim, os domingos ficarão incompletos sem suas crônicas, seu brilhante texto, sua verve, sua Itaparica, e aqueles personagens tão ubaldianos que batiam ponto no Bar da Honorina.

***

Que venha uma semana de luz e paz. Os últimos dias têm sido negros e pesados. Xô!

Tags: crônica, luto, RJ, velório, violência

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