Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Anna Ramalho

Crônicada Semana - “Com brasileiro, não há quem possa”

Minha mais antiga lembrança de Copa do Mundo é deliciosa: naquele longínquo domingo de 1958, mamãe resolveu apostar na vitória do Brasil sobre a Suécia e, para comemorar, encomendou uma lasagna à bolognesa no restaurante Papagallo – um must da época – que ficava na Rua Prado Júnior, ali se não me engano ao lado do Cervantes, há anos e anos no mesmo local. Era a mais famosa lasagna do Rio e mamãe dava plena razão à fama com o know how que tinha de comida italiana, que aprendeu a cozinhar in loco, quando foi com meu pai morar em Milão logo depois da Segunda Grande Guerra. Mal podia imaginar ela que seu neto Christiano, tantos anos depois, viraria um prestigiado chef, que diariamente cozinha as delícias do côté italiano de Claude Troisgros em sua Trattorie. Era o tempo do Esquadrão de Ouro.

Anos mais tarde, como eram boas todas as Copas, com ou sem vitórias, da minha juventude. A turma do colégio, de Teresópolis, da Rua Dias da Rocha, todo mundo de verde e amarelo torcendo, vibrando, numa festa que durava dias. Dias felizes, azuis, alegres como só são quando não temos outra responsabilidade que não a de buscar o prazer.

Bem, não foi lasagna que comi ontem, depois daquela suada vitória, assim como longe vão aquelas Copas da minha mocidade.  A bem da verdade, meio que perdi a fome depois de ver aquele patético show de abertura – e vamos combinar que definitivamente belga entende muito é de chocolate e cerveja. Tive acessos de riso com aqueles tufos de araucárias brotando de seres montados em pernas de pau e aquelas samambaias que fariam o maior sucesso nas lojas de flores artificiais da Rua da Alfândega. Como se não bastassem fauna e flora dignas de Terceiro Mundo, aquelas baianas fajutas, aquela gente esquisita. Quando a bola se abre,Claudia Leitte, Jennifer Lopez e aquele careca de bermudão que nem me interessei em saber quem era, tanta foi a importância de sua performance. Um país que tem Maria Bethânia, Nana Caymmi, Gal Costa, Simone, Marisa Monte, éCláudia Leitte (com dois, três, quatro T, a bomba é a mesma) que vai representar o Brasil para o mundo?? Sei, não, mas estou achando que esse tal padrão Fifa é da décima categoria. E a boazuda JLo, o que tem a ver com o Brasil?  Pensando bem, uma cucaracha que fez a América talvez mereça o selo do tal padrão Fifa de qualidade.  Quem me dera levassem a Leitttte de vez para Miami. Seria uma bênção do Divino.

                                                        ***

Queria ser uma mosca pra viajar no carro de Dona Dilma depois da vaia. A pobre filha (que, de óculos, na tribuna ao lado da mamãe, era uma versão mais graciosa da Graça Foster) deve ter aturado um bocado de maus bofes e impropérios, né, não?  O povo que estava ali naquele Itaquerão foi muito claro: cantou com força e fervor o nosso hino; vaiou a presidenta que, com sua presença, lembrava a todos que a festa poderia ter sido muito, muito mais bonita. É uma pena ver o Brasil descendo ladeira abaixo, quando chegou tão perto do olimpo.

                                                        ***

E o tal Paulo Roberto Costa, de volta ao xilindró, de onde nunca deveria ter saído? Este é um espanto. Na Suíça, tem U$ 23 milhões. Tinha em casa U$ 180 mil de argent de poche. É muita patifaria. Nunca foi tão fácil roubar, né, não? Resta saber se está preso mesmo, pra valer, ou se tem Smart TV para acompanhar os jogos da Copa, e uma boa champanhota na geladeira da cela pra comemorar os gols da moçada.  Neste país – e com este senhor – tudo é possível. Adoraria que oCosta se irritasse e começasse a cantar. Dizem por aí que não sobraria pedra sobre pedra na República.

                                                        ***

A sociedade carioca perdeu duas grandes damas com poucos dias de diferença:Maria Cecília Geyer, que infelizmente pouco conheci, mãe de minhas amigasVera e Maria;  e minha querida Alice Tamborindeguy, com quem tive o prazer de conviver mais – mulher bonita, interessante e uma mãe aguerrida de suas duas filhas Alice Maria e Narcisa. Viveram muito, viveram bem, num Rio e num Brasil certamente mais ameno e elegante.

Que estejam ambas na luz do Senhor.

Tags: Copa, dilma, Mundial, Mundo, política

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.