Jornal do Brasil

Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Anna Ramalho

Crônica da Semana - O Brasil na zona do agrião

Tudo anda muito chato, vamos combinar. Deprimente também. Até o Cine Odeon vai fechar as portas – aquele cinema que já abrigou festivais, com tapete vermelho na entrada, o cinema da velha e charmosa Cinelândia, que assim parece perder até a razão do nome. Não é mais “land” de cinema nenhum, como foi em outros tempos. Dias de glória, quando não só no Rio, mas no Brasil todo, éramos muito mais felizes. Hoje, os dias andam azuis, ensolarados, com aquela luz outonal que ilumina à perfeição a Cidade Maravilhosa, mas seus moradores andam se sentindo na Londres de Sherlock – cinzenta e cheia de neblina. Culpa do desacerto geral que reina em todas as esferas. Parece que sacudiram isso aqui como se fosse um milk shake e entornaram o caldo de vez.

Em Brasília, ninguém se entende. Nem pode. O noticiário político está mais ou menos como aquela história do pão do pobre, que sempre cai no chão com a banda que tem manteiga. As projeções para Dona Dilma não andam nada alvissareiras e imagino que o pau esteja cantando na casa de Noca. Como sabemos todos, Sua Excelência tem um geniozinho que não permite contrariações de qualquer espécie – o que dirá quando as notícias são de que o céu não está tão de brigadeiro quanto ela pensava, que o perigo da derrota existe verdadeiramente, que seu patrono esbraveja e ameaça, mas, já que jura não pensar em concorrer agora, pode ser obrigado a botar o galho dentro e esperar pelo longínquo 2018. Tomara Deus. Não vejo a hora de me livrar desse povinho.

Como postou uma conhecida no Facebook, cuja mãe era imigrante: “Minha mãe, que veio da Europa, dizia que os czares roubavam, mas como ficavam muito tempo no poder, não precisavam renovar a roubalheira, pois já estavam com muito dinheiro.” Pois é. Os czares roubaram e deu no que deu. Aqui rouba-se há séculos e nada acontece. Nem ovo Fabergé a gente tem nos museus – os larápios levam tudo e não deixam nada,  nem  souvenir de uma era que se quer esquecer. A renovação da roubalheira dá-se, mais ou menos, de quatro em quatro anos.

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Enfim, no momento, Sua Excelência deve estar mais preocupada em mandar fazer um blaser vermelho novinho em folha pra ficar nos trinques pra Copa. O Blatter, oValcke, o Galvão Bueno, o Neymar, toda essa gente tem que olhar pra ela e tirar o chapéu. Afinal, ninguém enverga um blaser vermelho como Dona Dilma, né, não? Pena que ela abdicou do pontapé inicial. Adoraria ver o modelito da chuteira da presidenta.

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Tenho que fazer um esforço sobre-humano para não mergulhar em depressão profunda. Noves fora as dores de quem é classe média, vive de salário e tem um pânico crescente a cada dia 5 – quando o dinheiro entra e sai na mesma velocidade para custear a vida de quinta que levamos todos por aqui – ainda sou obrigada a conviver com o noticiário que, nos últimos dias, anda de chorar mesmo. O cidadão que morreu no ônibus porque o hospital estava em greve e negou atendimento (Luiz Claudio Mariga,  fotógrafo de raro talento, ficamos sabendo depois da tragédia) e a diretora do nosocômio que merecia ser presa pelas declarações dadas ; o louco de São Paulo que matou e esquartejou o pobre zelador; essa greve interminável dos vigilantes de banco ( a turma colou pequenos adesivos de cima abaixo na porta de vidro do Banco do Brasil aqui da Rua Jardim Botânico. Protestam e esquecem de ser solidários com os companheiros da faxina, que também devem andar precisando de reajuste salarial, como todos os brasileiros); sou a favor de greve, mas tudo tem um limite, principalmente quando o próprio grevista desrespeita a classe trabalhadora da qual faz parte. Parece que no Brasil o sentido de limite pra qualquer coisa também foi pro brejo.

E o que dizer do bate-boca entre os deputados Domingos Brazão e Cidinha Campos? E o Brazão se confessando assassino, candidamente, diante das câmeras de TV? A nossa classe política – com raras e cada vez maiores exceções – é de décima categoria.

Ufa, quanta baixaria !!! Isso é só uma amostra do muito que tenho me sentido agredida e desrespeitada. Tirem-me daqui!

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Diante desse circo dos horrores,   que venha a Copa do Mundo – e que venha com a vitória do Brasil. Estamos desesperadamente precisados de uma injeção de alegria, uma espécie de anestesia para essa dor que incomoda e que teima em não ir embora. Antes mesmo de começar o evento, já sabemos que o Brasil está pagando o maior mico de todos os tempos mundo afora. Perder o campeonato seria um mico preto na única área em que, literalmente, damos show de bola.

Que os deuses do futebol guiem os chutes e passes de Fred, Neymar, David Luiz, Julio Cesar e toda aquela rapaziada do bem que forma a nossa seleção canarinho.

E que Deus nos livre de mais um rebaixamento. A essa altura do campeonato, uma queda desse tamanho pode ser fatal.

Tags: Copa, futebol, Governo, odeon, política

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