Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Anna Ramalho

Da Disney à SuperVia: o rolezinho particular da colunista

Passar uma semana na Disney, nos braços do Mickey e do Pateta, pode ter um efeito calmante, por incrível que pareça. O cansaço físico para a coroada é considerável, mas valem a estafa, todas as filas, todos os apertos pelo efeito melatonina na cabeça da gente – principalmente da brasileirada que enche os parques na Flórida e gasta como se não houvesse amanhã. É a terra da fantasia, do delírio puro, é um espetáculo! A gente se distrai e por aqueles breves instantes esquece o inferno verdadeiro que nos aguarda na volta pra casa. Eu que o diga. Depois de 7 dias mágicos ao lado da família, Bela Antonia como capitã do time que reunia os avós, tios daqui e dacolá, e os pais, naturalmente, sinto-me como se tivesse literalmente escancarado as portas do inferno depois de uma passada pelo paraíso. Não ajuda em nada a malfadada terra, repleta de achaques e acidentes os mais variados, o calor de 95 graus. Muito menos a água imunda do mar – por mais que me garantam que aquela espuma nojenta é coisa da natureza, não acredito. E tenho vontade de chorar quando me lembro das praias de Saint Barth, que é lindo balneário, mas nem chega aos pés do Rio: límpidas, cristalinas, azuis, convidativas quando a temperatura sobe a níveis insuportáveis. Por isso mesmo coalhada de iates fortunosos, que singram mares os mais diversos para atracar naquele paraíso natural. O Rio não oferece mais nem este atrativo. Dói no coração.

O Mickey e a Minnie: muito bom ser criança outra vez
O Mickey e a Minnie: muito bom ser criança outra vez

Às vezes desconfio que Deus cansou de ser brasileiro e pediu outra cidadania. Até o Cristo Redentor perdeu o dedo enquanto eu desfilava ao lado da Minnie e aqui se instituía com a velocidade dos novos tempos internéticos esse tal de rolezinho. O descarrilamento da SuperVia foi o fim da picada – ver aquela pobre gente, que enfrenta este calor monumental para chegar aos seus trabalhos, tratada como gado de quinta, também dói no coração. É muita desumanidade! Mais uma num país em que tudo surpreende sempre. O que dizer do crowfundig em benefício do Genoíno? E o Delúbio que também quer o crow???  Poxa, será que eu também mereço um levantamento de fundos ou vou ter que encarar os 95 graus à sombra pra fazer prova de vida junto ao Banco do Brasil para receber a merreca de aposentadoria que me cabe depois de 40 anos de trabalho? Tive que fazer isso hoje e para tanto esperei que a madame gerente resolvesse alguns bons pepinos antes de me atender. Me deu vontade de berrar dentro da agência do Banco do Brasil. Um bom berro – melhor prova de vida não há. Um escândalo essa história de crowfunding. Aliás, uma boa conversa pra boi dormir. Custa-me crer em tanta solidariedade num momento em que os brasileiros decentes lutam para sobreviver. Eu não tenho dinheiro para entrar em crowfunding – e não vejo como a turma da classe média, que vive de salário, possa tirar algum do seu, já tão comprometido,  pra ofertar a político. Do PT , do DEM, do PSOL, seja lá de que partido for. Cheira mal essa vaquinha.

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Amor à vida entra em sua reta final como das mais absurdas novelas de todos os tempos, mas com um personagem que fez a diferença: o Félix do Mateus Solano. Bicha má que é bicha má não vira bicha boa e o Walcyr Carrasco sabe disso muito bem, mas a gente até encara a licença poética quando pensa que o autor foi obrigado a encher lingüiça por uns 100 capítulos para atender às ordens da Globo.

As bibas estiveram mais do que em alta no folhetim . O curioso é que o trio principal – Félix, Niko, Eron -  é boférrimo. Os três atores são espadas consagrados. Em certos momentos, Solano e Thiago Fragoso ( Niko) exageram nas tintas. Perfeito mesmo acho o Marcello Antony, a  bicha bi, que tenta voltar a ser homem porque na realidade nunca se assumiu inteiramente como homossexual. Antony compôs perfeitamente o personagem: o gestual e, principalmente, o olhar. Muito bom. Muito bem!

Marcelo Anthony e Thiago Fragoso brilharam como Eron e Niko em Amor à Vida
Marcelo Anthony e Thiago Fragoso brilharam como Eron e Niko em Amor à Vida
…mas nenhum brilhou mais do que Mateus Solano
…mas nenhum brilhou mais do que Mateus Solano

Vamos, agora, ao Manoel Carlos, cujas novelas sempre têm textos maravilhosamente bem escritos, ainda que as últimas tenham deixado a desejar no quesito ação. Paradonas demais. Mas um pouco de inteligência e cultura neste horário nobre infestado com esses BBBs de vigésima categoria  são mais do que bem vindas. Maneco dá de dez no Bial, né não?

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Momento saudade. Partiu o Jadir, o porteiro da noite aqui do prédio. Porteiro da noite é atividade tão solitária quanto a de um escritor – com a diferença de que este normalmente está em sua casa, cercado por suas coisas, seus personagens, enquanto cria. O porteiro, na solidão da sua cabine sempre apertadinha e triste, vela, vigia, cuida. Sem ter muitas vezes o agradecimento pelo que faz, pelo risco que corre enquanto a gente dorme e a violência come solta na cidade partida. Quando me mudei para cá, há 12 anos, já o encontrei aqui. Era alegre, atencioso, gostava muito de um dedinho de prosa, vibrava quando me via sair para desfilar pela Mangueira ( coisa que já não faço,  morreria de calor), me consultava sempre sobre os mais diversos assuntos – “Dona Ana, a senhora que é jornalista, deve saber…” – confidenciava suas preocupações, pedia orientação para algum problema. Senti falta dele quando voltei das férias, no início de dezembro. Soube que ele estava adoentado, problemas decorrentes de diabetes. Pedi seu telefone e acabaram não me dando. Viajei novamente. Ao chegar, tive a triste notícia. Não falei com ele, uma pena. Amanhã vai ter missa de sétimo dia em sua memória. Lá estarei. Com a certeza de que São Pedro, o porteiro de Deus, já terá escancarado as portas do paraíso para receber o bom, o correto, o querido Jadir Loureiro Fraga.

Tags: BBB, globo, manoel carlos, marcello antony, novela

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