Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Anna Ramalho

Crônica da Semana - 2014: o buraco que já começou

Virou o ano. Viro a página alegremente e, apesar de tudo e de todos, tento me manter otimista. Não posso perder a Fé.

O calor emburrece. A 42 º  à sombra, areias escaldantes e entupidas, tem que ser muito otimista mesmo para encarar a tela em branco, a falta de assunto, e todas aquelas pequeninas aporrinhações quotidianas que chegam ao despontar de qualquer novo ano. Só não chegam para as crianças, esses seres abençoados e poupados. Pelo momento. Também já fui criança um dia – o que não deixa de ser quase uma ironia na véspera dos meus 65 anos. Jesus!!! Passou rápido. Rápido demais para o meu gosto. Consola constatar que, se a carcaça já não é mais o que foi em seus dias de glória, a saúde permanece estável e a cabeça segue direitinho sem maiores sobressaltos do que aqueles inevitáveis brancos nas conversas ( “como é mesmo o nome daquele rapaz, aquele que ia às festas do Iate com a gente, aquele bonitão que morava na Atlântica?” O (a) amigo do lado também não lembra. É seu (sua) contemporâneo (a). Salva-os o Face ou o Google. O que seria dos velhos sem a internet???)

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Voltando ao rumo da prosa: as aporrinhações do quotidiano. A conta de luz que já é escandalosamente alta e que virá dobrada ao cabo de janeiro. É pagar ou literalmente morrer de calor. Se o aparelho de ar não morrer antes, já que resfolega e estrebucha aqui do meu lado. Os buracos da Cidade Maravilhosa. Fui ao Leblon no último dia do ano passado. Voltei horrorizada e morrendo de medo que uma possível nova administração estadual faça com que o Leblon – o mais alto IPTU da cidade – vire uma Pompeia em plena zona sul do Rio. Todos nós sabemos que isso é possível no mundo dos políticos que nos cercam. Pé de pato, mangalô, três vezes. Mas que morro de medo que venha um Crivella, um Garotinho, um Lindbergh e resolva não tapar os buracos do Cabral, lá isso morro mesmo. Nós já vimos esse filme. Sou da geração Buraco do Lume.

O Leblon hoje: buracos para o metrô do bairro mais caro do Rio de Janeiro
O Leblon hoje: buracos para o metrô do bairro mais caro do Rio de Janeiro

Quem sabe melhora no porvir? Vamos ser otimistas. Um pouquinho, pelo menos.  O prefeito Eduardo Paes entrou o ano de bermuda. Adorei! Adoraria que ele adotasse o traje durante todo o verão, incentivando seus comandados a fazerem o mesmo. É um absurdo numa cidade que atinge as temperaturas que o Rio registra os homens tenham que se enfiar em terno e gravata para encarar as repartições no Centro. Fica faltando o chapéu panamá para proteger a cabeça – ou a ex-calva, né, Renan? – dos efeitos nocivos dos raios solares. O Astro Rei foi de longe quem ficou mais malvado com toda essa mudança climática. Nem Teresópolis, a serra onde me refugiei em todos os doces anos da minha mocidade, tem mais aquele clima de montanha. Quando os raios de sol ultrapassam os filtros solares a gente pode sentir que eles entram para molestar, além de incomodar barbaramente. No dia em que liguei o ar condicionado em Petrópolis, senti que tudo mudara. Pra pior, claro.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e sua linda mulher, Cristine: pernas de fora para encarar o verão
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e sua linda mulher, Cristine: pernas de fora para encarar o verão

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Voltando às aporrinhações do dia a dia. Pelo que registrei hoje nas redes sociais, o vilão da temporada será o táxi. Ou melhor, os taxistas. Categoria, aliás, que já faz jus ao título de hors concours. Como os taxímetros ainda não foram aferidos, cobram no tiro. Quase à bala, eu diria. Amiga nossa ontem mesmo foi achacada por um infeliz que avisou logo que custaria R$ 25 uma corrida da Lagoa a Botafogo. No tiro. O motorista mais ou menos dobrou o que seria a tarifa justa. Tem que chamar a polícia. Sério.

Dobraram também o coco, o sorvete, o limão, as cadeiras e barracas na praia. Dobraram todos os preços nos supermercados e feiras livres. A tudo isso o ministro Guido Mantega – que ainda deve gozar de férias por aí – se desculpa dizendo que “ a economia está crescendo com duas pernas mancas”. Impressionante Dona Dilma manter este aleijão no governo. Simplesmente não dá pra entender. Pensando bem, até dá. Afinal de contas – e apesar de tantas coisas para encher a sua cabecinha tão cuidadosamente penteada pelo Kamura -  ela está mesmo é preocupada com a “guerra psicológica” da oposição. O resto que se dane.

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Ai, ai, ai. 2014 promete! Vamos ter aquele desfile de promessas eleitoreiras, acusações e retaliações eleitorais, misturados com Copa do Mundo, Galeão quentão, taxistas gananciosos, banqueiros gulosos, empreiteiros de boca aberta, celebretes e famosetes e paparazzi garantindo o circo para o povo – aquele horror habitual multiplicado por dez. Em suma, a mais pavorosa visão do inferno. Tento me manter otimista, mas confesso que está a cada dia mais difícil ser Pollyana no país de Lula e Dilma.

A ver no que dá. Os próximos 363 dias nos dirão.

Tags: ano novo, cidade, eduardo paes, festa, leblon

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