"Salve Jorge" já deu o que tinha que dar
Gosto da Glória Perez como pessoa: ela é simpática, zero de estrelismo, amiga dos amigos, inteligente, enfim, tem uma série de qualidades que admiro. Sofreu a dor que ninguém merece sofrer quando perdeu, daquela forma tão cruel e covarde, sua jovem e bonita filha Daniella – que era uma bailarina maravilhosa e estava caminhando bem na carreira de atriz. Trapaças do destino, rasteira sem tamanho, a vida real parecendo de repente uma trágica novela das nove. Suas tramas são sempre meio delirantes, com aquele vaivém que pode ser Rio-Marrakesh, Rio-Nova Delhi, Rio qualquer lugar excêntrico e remoto mundo afora, de preferência com uma cultura bem diferenciada. Tem também o onipresente salão da gafieira, onde patrões, empregados, bandidos e mocinhos sempre evoluem ao som da voz de Alcione. Um drama fora do comum também é de lei, bem como as idas e vindas dos mocinhos da hora. É a receita dela, como filosofar e arrastar capítulos é o barato do Manoel Carlos e viver na rede a dar pitacos venenosos sobre os colegas é o que encanta o Aguinaldo Silva. Questão de estilo. Marketing. Cada um com seu cada qual.
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Agora, em “Salve Jorge”, com todo o respeito pelo trabalho de um autor de novelas ( que não é mole, não é bolinho!), a Glória perdeu a mão. De tão inverossímil, o que deveria arrancar lágrimas na história me fez gargalhar – eu e a minha atenta turma do Facebook. Na noite desta terça-feira, quando Morena reencontrou o Theo, mais de 200 posts apenas durante o horário da novela. A cena do reencontro foi uma piada verdadeira. Porque só pode ser piada a heroína largar o filho recém-nascido que ainda mama no peito em casa, se mandar da zona sul para a Penha, ali no sovaco do Morro do Alemão, e encontrar o grande amor numa igreja – como se igreja católica ficasse aberta em plantão permanente. Kakakakaakkaakkaakkakaaka! Naquela hora até o furioso dragão de São Jorge dorme a sono solto. Na cena seguinte, os dois se amassam pelas ruas sem bandidos (vai ver é o Éden e a gente não sabe) e acabam num motel, cujo quarto é iluminado por velas em profusão. O que me faz pensar que, das duas, uma: ou o casalzinho aproveitou um daqueles apagões que já estão virando rotina na cidade ou a direção da novela errou feio. O décor estava mais para alcova de Maria Antonieta em Versailles - antes da guilhotina, bien sûr.
