Jornal do Brasil

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Anna Ramalho

Papo mulherzinha no Dia Internacional da Mulher

Escrevo na véspera do Dia Internacional da Mulher e um dia depois de ter comemorado os 36 anos do meu único filho, o Christiano. Coisa que me deu o que pensar. Por exemplo: teria sido eu uma mulher mais bem sucedida profissionalmente se não tivesse tido filho? Talvez, porque aí o foco ao trabalho jamais seria desviado. Teria sido mais feliz assim? Claro que não. Parir um filho  e amá-lo no ato, criá-lo, acompanhar seu amadurecimento, sua trajetória profissional e pessoal são coisas que absolutamente não têm preço.

Temos uma presidente mulher. Presidenta, como ela gosta de ser chamada. Olho para ela, enxergo o poder, a responsabilidade, mas sinto ali, naquele coração que às vezes parece de pedra,  uma imensa solidão. Os puxa-sacos – aquela abominável classe que a cada dia cresce mais, mas sempre no entorno dos poderosos – fazem sua parte muito bem. Li, semana passada, que durante o jantar em que Sua Excelência esteve para homenagear o Sarney, todos elogiavam a pele louçã de Dona Dilma (64 anos), a maciez dos seus cabelos, o acerto no corte e no tom, o sorriso bonito, enfim, toda a paleta de cores possível em termos de puxasaquismo explícito. Detalhe: o jantar era na casa do Michel Temer, cuja mulher é aquela bonitona, a Marcela, trinta e poucos aninhos, que ofuscou a cerimônia de posse do maridão e da chefona. Duas mulheres, dois estilos, dois pensamentos e, claro, dois pesos e duas medidas.  Duas mulheres poderosas, cada uma à sua maneira. Uma manda em casa, a outra manda no Brasil.

Dilma Rousseff com o neto Gabriel
Dilma Rousseff com o neto Gabriel

Mas aqui não se discute a questão da mulher X a mãe. É óbvio que Dilma Rousseff, com ou sem solidão de alma, está A-MAN-DO cada minuto de poder . Talvez muito mais do que tenha amado a maternidade, e nisso não vai nenhuma crítica, é apenas uma constatação baseada no seu passado guerrilheiro.  No Alvorada, vive em companhia de sua mãe e  recebe a eventual visita da filha e do netinho Gabriel .  Este, pelo que se comenta, é o que desperta o lado Dilminha da poderosa vovó. Está certo. É isso aí mesmo. Babonas e bobonas - assim ficam todas as vovós do mundo, inclusive as guerrilheiras. Ter neto é tudo – e eu que o diga, com minha Bela Antonia, a quem homenageio nesse dia de hoje. Um projeto de mulher. De uma bela e brilhante mulher.

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Entretanto, por mais que se homenageie a mulher, ainda há muito a fazer por elas. Se conquistaram o mercado de trabalho com a competência com que conquistaram, ainda falta receber, além do respeito devido pelo feito, a justa remuneração. As mulheres, em praticamente todas as profissões, continuam ganhando menos do que os homens. Ralam igual ou  pior – já que tantas se dividem entre o emprego e o trabalho doméstico – e na hora do contracheque a diferença pode ser gritante. Isso é injusto e irritante. E um bom mote para nossa presidenta usar na campanha pela reeleição que já começou -  e na qual ela vai entrar na queda de braço só com homens.  Com o goleiro Bruno a caminho do xilindró, cabe também uma reflexão sobre  o que fazer na questão seríissima dos maus tratos e da violência contra as mulheres, a questão do direito ao aborto e tantas outras injustiças que ainda nos cercam.

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No nosso Congresso Nacional, que tem até boas representantes femininas, faz falta uma mulher no comando da casa. Na Câmara dos Deputados ou – e, aliás, preferencialmente - no Senado, que tem aquele presidente que nos foi imposto goela abaixo e ninguém respeita. Só uma mulher teria a sensibilidade de vetar sumariamente a tentativa de fazer de um homofóbico racista ( o popular além da queda, o coice) presidente da Comissão de Direitos Humanos. Alôoooooo!!!!  No país que é presidido por uma mulher que foi barbaramente torturada na ditadura, não dá pra engolir que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados seja presidida por um fundamentalista de quinta categoria, né, não? Não dá, mas é o que vai acontecer.  Acabo de ler que o pastor Marco Feliciano ganhou o posto. Isso é Brasil! Mulheres congressistas, reajam!!!!

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Dia Internacional da Mulher ou não, a verdade é que a guerra dos sexos não acabou. Se não, vejamos: o aniversário do meu filho foi comemorado com jantar em família na casa do pai do Christiano, o Ricardo. A ideia, claro, foi da mulher dele, a doce Fernanda. O auge da civilidade, vamos combinar. Foi comemorado com champagne francês e vinhos da melhor qualidade – afinal, o filho é chef e o pai,  um amante da boa mesa. Nada de dieta naquele dia. Ao abrir uma garrafa de um tinto especialíssimo, o Ricardo sai-se com a seguinte: “Já cheguei à conclusão que mulher e bom vinho não combinam. Enquanto os homens saboreiam cada gole, elas ficam falando sem parar.”

Quase apanhou, claro, mas marcou a posição machista bem na véspera do Dia Internacional da Mulher. E o pior é que no fundo, no fundo, ele tem lá sua razão. Mulher sempre prefere falar.  Mas quando ela prefere fazer, sai de baixo. Taí Dona Dilma que não me deixa mentir.

Tags: crônica, dilma, homenagem, política, rousseff

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