Cabral foi espionado pela Central de Informações da Aeronáutica na ditadura
A Central de Informações da Aeronáutica, o Cisa, que operou até 1988, acompanhou os passos do governador Sérgio Cabral Filho nos anos 80, quando o hoje governador era apenas o filho de Sérgio Cabral, o fundador do Pasquim e vereador pelo PMDB. Dois informes inéditos encontrados no Arquivo Nacional e obtidos pela coluna mostram relatos de encontros de Cabral com militantes do PCB. Sim, o governador começou sua militância no partidão.
O Brasil ainda amargava os estertores da ditadura, com generais aposentando os quepes de um lado e arapongas do Serviço Nacional de Informações e outras agências do serviço secreto relutando em aceitar que haviam perdido o jogo. Em 1983, a política do Rio era sacudida pela posse de Leonel Brizola, talvez a eleição mais indigesta para o generalato. A partida estava só começando para Sérgio Cabral - o filho, é claro, já que o pai, vereador pelo PMDB na época, já era jornalista veterano naqueles tempos e antigo militante do partidão. O Palácio Guanabara sequer supunha que um dia seria ocupado pelo garoto.

O primeiro informe da seção fluminense do Cisa é de 26 de abril de 1983. Econômico, apenas comunica ao Serviço Nacional de Informações (SNI) e ao Comando de Informações do Exército (CIE) que Cabral mantinha contato com militantes do partidão. Isso já era sabido, uma vez que o filho sempre conta que costumava acompanhar o pai nas reuniões da velha guarda. A principal novidade está em um segundo documento, de 30 de janeiro de 1985, quando o Cisa-RJ comunicou às instâncias superiores que "Serginho" estava tentando conseguir tratamento médico no exterior para um militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8.

De acordo com o relatório, Cabral Filho pedia ajuda a Givaldo Pereira da Siqueira, dirigente do partidão na época e hoje dirigente do PPS.
"Sérgio de Oliveira Cabral Santos "Serginho", militante do PCB/RJ, está providenciando junto a Givaldo Pereira de Siqueira, membro da Comissão Executiva do Comitê Central do ilegal PCB, tratamento médico no exterior para Paulo Rogério Silva Dias 'Barão', membro do CR/RJ/MR-8 e assessor do gabinete do Sérgio Cabral, vereador pelo PMDB/RJ e militante do PCB/RJ", diz o texto.
O médico Manoel Isnard Teixeira, professor da UFRJ durante muitos anos, também se envolveu no episódio, segundo os arapongas do Cisa.
"Manoel Isnard de Souza Teixeira, médico e membro do CC/PCB, está vendo se consegue com que o tratamento médico do Paulo Rogério Silva Dias, seja feito na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro", revela o documento.
De lá para cá, tudo mudou. Parte do PCB migrou para o PPS, outra seguiu num partido sem maior expressão, o MR-8 acabou, o PMDB da época não é o PMDB de hoje em dia, Cabral pai deixou a política e hoje é um respeitado pesquisador e escritor. O tal Serginho, bem, o tal Serginho agora está às voltas com a possível candidatura de mais uma geração da família. Marco Antônio Cabral, com os mesmos 20 e poucos anos do pai na época, quer ser deputado federal.
Em conversa com a coluna, o hoje governador Sérgio Cabral Filho confirmou toda a história.
- Claro que me lembro de tudo isso. O Barão, como era conhecido, havia sido militante do MR-8 e trabalhava na Câmara dos Vereadores com meu pai. Ele infelizmente já morreu. Agora, não sabia que estava sendo espionado. Fiquei sabendo agora.
