Jornal do Brasil

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Anna Ramalho

Cabral foi espionado pela Central de Informações da Aeronáutica na ditadura

Anna Ramalho

A Central de Informações da Aeronáutica, o Cisa, que operou até 1988, acompanhou os passos do governador Sérgio Cabral Filho nos anos 80, quando o hoje governador era apenas o filho de Sérgio Cabral, o fundador do Pasquim e vereador pelo PMDB. Dois informes inéditos encontrados no Arquivo Nacional e obtidos pela coluna mostram relatos de encontros de Cabral com militantes do PCB. Sim, o governador começou sua militância no partidão.

O Brasil ainda amargava os estertores da ditadura, com generais aposentando os quepes de um lado e arapongas do Serviço Nacional de Informações e outras agências do serviço secreto relutando em aceitar que haviam perdido o jogo. Em 1983, a política do Rio era sacudida pela posse de Leonel Brizola, talvez a eleição mais indigesta para o generalato. A partida estava só começando para Sérgio Cabral - o filho, é claro, já que o pai, vereador pelo PMDB na época, já era jornalista veterano naqueles tempos e antigo militante do partidão. O Palácio Guanabara sequer supunha que um dia seria ocupado pelo garoto.

Documentos mostram relatos de encontros de Cabral com militantes do PCB
Documentos mostram relatos de encontros de Cabral com militantes do PCB

O primeiro informe da seção fluminense do Cisa é de 26 de abril de 1983. Econômico, apenas comunica ao Serviço Nacional de Informações (SNI) e ao Comando de Informações do Exército (CIE) que Cabral mantinha contato com militantes do partidão. Isso já era sabido, uma vez que o filho sempre conta que costumava acompanhar o pai nas reuniões da velha guarda. A principal novidade está em um segundo documento, de 30 de janeiro de 1985, quando o Cisa-RJ comunicou às instâncias superiores que "Serginho" estava tentando conseguir tratamento médico no exterior para um militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8.

Documentos mostram relatos de encontros de Cabral com militantes do PCB
Documentos mostram relatos de encontros de Cabral com militantes do PCB

De acordo com o relatório, Cabral Filho pedia ajuda a Givaldo Pereira da Siqueira, dirigente do partidão na época e hoje dirigente do PPS.

"Sérgio de Oliveira Cabral Santos "Serginho", militante do PCB/RJ, está providenciando junto a Givaldo Pereira de Siqueira, membro da Comissão Executiva do Comitê Central do ilegal PCB, tratamento médico no exterior para Paulo Rogério Silva Dias 'Barão', membro do CR/RJ/MR-8 e assessor do gabinete do Sérgio Cabral, vereador pelo PMDB/RJ e militante do PCB/RJ", diz o texto.

O médico Manoel Isnard Teixeira, professor da UFRJ durante muitos anos, também se envolveu no episódio, segundo os arapongas do Cisa.

"Manoel Isnard de Souza Teixeira, médico e membro do CC/PCB, está vendo se consegue com que o tratamento médico do Paulo Rogério Silva Dias, seja feito na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro", revela o documento.

De lá para cá, tudo mudou. Parte do PCB migrou para o PPS, outra seguiu num partido sem maior expressão, o MR-8 acabou, o PMDB da época não é o PMDB de hoje em dia, Cabral pai deixou a política e hoje é um respeitado pesquisador e escritor. O tal Serginho, bem, o tal Serginho agora está às voltas com a possível candidatura de mais uma geração da família. Marco Antônio Cabral, com os mesmos 20 e poucos anos do pai na época, quer ser deputado federal.

Em conversa com a coluna, o hoje governador Sérgio Cabral Filho confirmou toda a história.

- Claro que me lembro de tudo isso. O Barão, como era conhecido, havia sido militante do MR-8 e trabalhava na Câmara dos Vereadores com meu pai. Ele infelizmente já morreu. Agora, não sabia que estava sendo espionado. Fiquei sabendo agora.

Tags: cabral, ditadura, documento, espionagem, informação

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