Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Anna Ramalho

Zapeando pelo passado

Deixei Carminha e Nina brigando e parti para o show do cantor Márcio Gomes ao lado do pianista João Carlos Assis Brasil. Preferi a música aos embates da megera da hora e sua louca enteada. Claro que deixei o capítulo gravando, afinal era o dia da grande vingança. Fiz bem. E mais uma vez viajei, cutucada pela memória de bons momentos. Impressionante como a música tem esse dom. Assim como os odores e sabores. O peixe refogando no dendê com o camarão seco e as castanhas de caju trituradas. Como esquecer do vatapá da minha avó? O cheiro do bolo inglês assando, depois que a mana e eu já lambêramos das pás da batedeira o creme de manteiga e açúcar ( acho que vêm daí os quilos extras das duas). Mas isso não é novidade. As madeleines de Proust não me deixam mentir. Aos fatos.

Márcio Fortes tem aquele vozeirão pré João Gilberto e, durante pouco mais de uma hora, cantou com competência e encanto jóias do repertório brasileiro e internacional. O moço canta bem em vários idiomas, tem boa pronúncia, lembra Bibi nesta qualidade tão  importante para quem quer fazer bonito na língua dos outros. Assis Brasil arrasa no piano, como todos sabemos. Plateia repleta e subjugada, o cantor ataca de “Modinha”, música de Sérgio Bittencourt, que ganhou um festival e encantou o país na voz de Taiguara: “olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino/se eu pudesse ser menino, eu roubava esta rosa/ e ofertava todo prosa/ à primeira namorada...”

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Flávio Cavalcanti 
Flávio Cavalcanti 

Lembrei de Sérgio Bittencourt, que era filho de  Jacob do Bandolim, e jurado fixo do programa de Flávio Cavalcanti. Lembrei da vovó contando que o Jacob freqüentava a casa dela, na Rua Corcovado, porque sua filha mais velha, a Joninha, se dava com todo o cast da Rádio Nacional. Cega de nascença, a diversão dela era telefonar para os artistas, de quem acabava ficando amiga íntima. Daí a todos freqüentarem a casa de meus avós era um passo. Jacob, nos tempos das vacas magras, filou muita bóia na casa do Jardim Botânico. Mamãe, que era a filha do meio e a mais bonita das três, certa vez ganhou seresta comandada por Noel Rosa. Que tal?

Lembrei do Jacob, do Sérgio e lembrei com saudade do Flávio Cavalcanti, que verdadeiramente comandava a TV brasileira na época da Tupi, com os programas “Um instante, maestro!” e “A Grande Chance”. No primeiro, reunia feras do jornalismo e da MPB. Em seu programa, por exemplo, Nelson Motta, como jurado, foi catapultado para a fama. Ao seu lado, na banca dos julgadores da nossa música, Fernando Lobo, jornalista e pai do Edu, Mr. Eco, um crítico ranzinza, Carlos Renato, um crítico mais bem humorado, as atrizes Márcia de Windsor e Marisa Urban, entre tantos outros. “A Grande Chance” era um programa de calouros chique: todo mundo trabalhado no black tie. Era ótimo e lançou nada mais nada menos do que Emílio Santiago.

Certa vez, graças a minha amiga Léa Penteado ( figurinha fácil aqui nesse espaço), fui parar num dos júris do Flávio. Francamente, não me lembro qual, mas me recordo perfeitamente do sucesso que fiz durante dias. O telefone não parava de tocar. Todo mundo assistia aos programas dele.

Muita gente metia o pau em Flávio Cavalcanti. Era frequentemente tachado de reaça pela esquerda festiva. Só depois dos anos de chumbo, todo mundo ficou sabendo que ele andara agindo nos bastidores. Leila Diniz, por exemplo, ganhou lugar no júri dos programas e na casa de Flávio e sua mulher Belinha, em Petrópolis, durante todo o tempo em que foi perseguida depois da explosiva entrevista que deu ao “Pasquim”.

Nesses tempos de Faustão, Rafinha, Ana Maria Braga e coisas do gênero, dá uma saudade danada do Seu Flávio. Ele foi um apresentador de categoria.

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Pensando nele, penso no tal programa de calouros que a Globo está anunciando para o segundo semestre. A medida de sua importância na grade da casa está no horário anunciado: ao meio dia de domingo, assim tipo logo depois da “Santa Missa em Seu Lar.” É dose! Por que não como quadro fixo do “Domingão do Faustão” ou do “Fantástico”? Não entendo. E nem quero, honestamente. Saudades de Flávio Cavalcanti, que morreu muito cedo.

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João Emanuel Carneiro, você arrasa!!!! Dá-lhe, Carminha!!!!

Tags: crônica, cultura, música, show, televisão

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