Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Anna Ramalho

Crônica: ‘Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia’

Jornal do BrasilAnna Ramalho

Salvador, meu amor, Bahia. Toda vez que falo na capital da Bahia, uso este aposto. Porque amo de verdade aquela cidade. 

Até por razões atávicas – meu pai nasceu em Salvador e seus pais eram também soteropolitanos. Minha primeira viagem maior foi a Salvador, quando tinha pouco mais de um ano e meu pai ainda era vivo ( morreria pouco depois, quando eu tinha dois anos). 

Ele formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, a mais antiga do Brasil, um prédio lindo, no Terreiro de Jesus, a poucos metros do Pelourinho, onde, hoje, todo mundo anda com medo. Como anda com medo o pessoal de Ondina, do sofisticado Morro do Gato, da deslumbrante Avenida do Contorno, que oferece a mais bela vista da Baía de Todos os Santos,  imortalizada por Jorge Amado do Rio Vermelho, aprazível bairro que também treme face à violência que instalou-se no solo do Senhor do Bonfim.                                                                    

                                                             ***

Estou sempre indo a Salvador, embora nem tanto quanto gostaria. Costumo dizer que, se não morasse neste Rio que amo tanto, a opção seria Salvador – tão linda, tão sensual. Pimenta, dendê, cravo e canela. O batuque do Olodum. O acarajé da Dinha.  A brisa que não deixa ninguém fritar no calor. O Tempero da Dadá e o Amado, ali, novamente à beira da Baía de Todos os Santos, oferecendo cardápio local e internacional de primeiríssima. O Mercado Modelo. Aliás, a lambreta do Mercado Modelo. Nem os chatos que ficam assediando os turistas com figas e guias de araque conseguiram jamais me irritar ali. Há dez mil anos atrás, meu filho ainda pequeno, levamos um susto quando um mico surgiu do nada, montado no cangote de uma cigana que insistia para ler a minha mão. Há uma meia dúzia de anos, ri muito ali, enquanto bebericava caipirinhas com o Chicô, o Paulo e a Henriqueta. Naqueles dias, Salvador estava a beleza de sempre, tranqüilo, tranqüilo – e olha que a gente rodou pra valer. Até na feira livre de Água de Meninos fomos parar. Há cem mil anos atrás, passei em Salvador a minha lua-de-mel, na então recém-inaugurada Pousada do Convento do Carmo, bem ali no Pelô, hoje como ontem o mais luxuoso hotel da Bahia – agora reformado por um grupo português. As visitas a Itaparica. Quanta saudade! Em todos os tempos, em todos estes anos, a generosidade e a malemolência dos ilhéus da terra do grande João Ubaldo. Praia, peixe frito e rede pra jiboiar. Não tem coisa melhor. Aquele mar azul, de águas tépidas, o Grande Hotel de Itaparica, onde o jogo comia solto e na moita.Doces recordações de um tempo que, parece, não volta mais.                                                            

                                                       ***

Já faz tempo meu grande amigo Aleluia, baiano do interior, vinha me dizendo que a violência estava solta na Bahia. Capital e interior. Fazendas assaltadas, seqüestros, malfeitos de toda a sorte. Coincidência ou não, desde que o grande cacique Antônio Carlos Magalhães morreu. Conheci o ex-governador, ex-ministro, ex-senador, o temido Toninho Malvadeza – que virava Toninho Ternura apenas à invocação de sua amada Bahia. Não fomos íntimos, mas, nas nossas relações profissionais, só posso falar bem dele. Zero daquela truculência que exibia constantemente e sempre que a situação exigia. Na maioria das vezes, estivemos ideologicamente em campos opostos.  Mas, justiça seja feita, ninguém fez pela Bahia o que ele fez. ACM deve estar rolando na tumba. É pau, é pedra, é baderna e, como se não bastasse, é sombra na praia porque liberaram os gabaritos da orla de Salvador. Nós, cariocas, sabemos muito bem o preço que se paga por essas libertinagens.                                                          

                                                          ***

Desde criança, a cada vez que ouvia Saudade da Bahia, sentia um aperto no peito. Pequenina, já entendia aquele toque de melancolia, de nostalgia,  que o grande Caymmi imprimiu a um dos seus maiores clássicos.“Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia, ai se eu escutasse o que mamãe dizia...”O aperto no coração continua. Bem como a fé nos poderes do Senhor do Bonfim, que reina sobre Salvador em sua colina. Ele que é Oxalá nos terreiros do candomblé. Possa Ele e todos os orixás trazerem àquela terra tão linda a paz que os baianos merecem. E políticos com pulso que não deixem o pirão da moqueca desandar. Porque, afinal, “pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”.                                                             

                                                         ***

Para matar a Saudade da Bahia, a gravação da música, reunindo os saudosos Dorival Caymmi e Tom Jobim, em gravação que junta as famílias dos dois. Obrigada, You Tube.

 

Tags: anna ramalho, Bahia, dorival cayme, música, Salvador, tom jobim, you tube

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