E assim se passaram os anos. Ou: Leila Diniz vive!
Na agenda de Mamãe, no dia 19 de janeiro de 1982, havia uma só anotação: “Morreu Elis Regina. Que pena!”. Mal sabia minha doce e tão sensível mãe que, exatos 11 meses depois, no dia 19 de dezembro, ela estaria sendo enterrada.
Logo depois de uma cantora a quem muito apreciou, como todos nós, seus contemporâneos. Mamãe exprimiu ali o sentimento de todos os apreciadores de sua voz, de sua extrema musicalidade, de seu grande repertório, de sua presença cênica e também... do mau gênio, de algumas acusações de maucaratice, do estrelismo exacerbado, entre outras coisas mais ou menos desabonadoras.

Só estive com ela uma vez, para uma entrevista, à época em que morava no Joá – acho que recém-separada do Ronaldo Bôscoli. Era um condomínio que existe até hoje, cheio de lindas casinhas e com vista deslumbrante. Nas horas em que estivemos juntas, ela detonou uns três ou quatro com a maior tranqüilidade. Não livrou a cara nem de quem já tinha namorado, como foi o caso de Edu Lobo. Apesar de muito jovem na época ( e ela também, que era apenas quatro anos mais velha do que eu), saí horrorizada do encontro. Amigo é coisa sagrada pra mim. E, como sempre fui muito fã do Edu, saí indignada e acabei detonando a matéria também, que era encomenda, se não me engano, da Fatos & Fotos. De propósito, fiz uma reportagem que fugia ao espírito da revista e que acabou sendo engavetada. Vingancinha particular, nem por isso menos saborosa.Se não sou e nem nunca fui chegada à pessoa, sou fã da artista. E, só por isso, entendi o quanto minha mãe realmente sentia e fazia questão de registrar a morte tão prematura de uma das mais belas vozes do país – e por que não? - do mundo.Elis faz falta.
***
Nara Leão sempre foi tudo de bom. Ao contrário da rival Elis, era moça bem nascida, finíssima, irmã de Danuza – a primeira e única -, intérprete de primeiríssima e, na minha modesta opinião, a cantora que melhor e com mais bom gosto escolheu repertório em todos os tempos da MPB. Noves fora ter os joelhos mais bonitos da MPB, como se comentava à época, quando os botava à mostra usando as minissaias de Miss Quant. Nara era uma graça - e tem a cara elegante e refinada dela o site que a filha Isabel Diegues criou para comemorar os 70 anos que, infelizmente, não completou. Nara Leão é saudade que dói. O endereço do sítio é www.naraleao.com.br E cá neste sítio, ao pé da página, vocês poderão rever Nara cantando Camisa Amarela, de Ary Barroso. Nara Leão é saudade que dói.
***
2012 marca, então, os 30 anos da morte de Elis, da minha mãe, o setentão da Nara e uma data à qual ainda não vi publicamente qualquer menção: os 40 anos de morte de Leila Diniz, a musa do Rio de Janeiro. Aquela moça charmosíssima, gostosíssima, que virou o país de cabeça pra baixo na época da ditadura e conquistou ( no bom sentido) corações tão empedernidos quanto o de Flávio Cavalcanti, que lhe deu emprego e abrigo quando o Brasil lhe perseguia. Aqui um parêntesis: Flavinho Cavalcanti lembrava semana passada que, se vivo fosse, o pai teria comemorado 89 anos neste janeiro. Saudade do Flávio. Fecho o parêntesis.A morte de Leila foi um choque pra mim. Doeu muito. Quando o avião em que ela estava caiu, a Bloch mandou correndo para as bancas sua derradeira entrevista dada a mim para a revista Pais & Filhos, com fotos deslumbrantes de Frederico Mendes, um craquésimo das lentes e meu amigo da vida. Era uma linda e verdadeira entrevista do que Leila definiu como “meu melhor papel: o de mãe”. Nosso encontro foi no mesmo condomínio do Joá, onde, anos depois, entrevistei a Elis. Ela cuidava da Janaína direto, com o auxílio discreto de uma babá, e quis conversar comigo sentada numa pedra, no meio do mar, porque, como justificou com aquele seu jeito, “se a Janaína começar a chorar, vou me desconcentrar e essa entrevista fica uma merda!”. E ali, apenas com o marulho das ondas, conversarmos à beça e ela foi absolutamente franca. Leila era assim: límpida, cristalina, sem meias palavras. Desbocada encantadora. Sangue bom.Chorei muito quando ela morreu. Pensava que, dali para a frente, nem que quisesse, ela poderia ser interrompida pelo choro do seu bebê, que também não teria o prazer de crescer ao lado daquela extraordinária mulher.Leila também é saudade eterna. Que de longe às vezes mato, quando cruzo com a Janaína – o retrato vivo da mãe. Quarenta anos! Como pode ter passado tanto tempo?
***
P.S.: 2012 marca também os 20 anos do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Mas isso é uma outra história, que fica para uma outra vez.
