Crônica: ‘Quando eu me chamar saudade’
Aos sete anos, como todas as meninotas do meu tempo, fui obrigada a aprender piano. Não passei do básico, infelizmente. Mais tarde, na adolescência, e influenciada pelos festivais da canção que tanto fizeram a cabeça do pessoal da minha geração, aprendi a tocar violão.
Não era nenhuma Rosinha de Valença, mas quebrava um galho. Seja com o piano frustrado, seja com o violão que larguei quando parei de roer as unhas, o fato é que sempre adorei música – clássica e popular. Adoro ouvir, adoro cantar, sei tudo quanto é letra!
Tal habilidade me levou, um dia, há quase 40 anos, a honra única: no antigo Degrau, no mesmo lugar onde hoje está o remodelado ainda que já bem fané também, fui acompanhada ao violão pelo grande Nelson Cavaquinho, que amanhã, dia 29, se vivo fosse, completaria 100 anos. Naquela madrugada, estava em companhia do Ricardo, pai do meu filho e namorado na época, a maravilhosa Beth Carvalho e, se não me engano, Vânia, irmã dela, e o Edmundo Souto Neto, que era o namorado da Beth na época. Não tenho certeza dos outros – mas da Beth e do Ricardo, tenho. Enfim, éramos poucos no folclórico bar do Leblon e eu cantei ( até direitinho) um samba do Cavaquinho que havia sido gravado por Elizeth Cardoso: “sei que estou no último degrau da vida, meu amor/ já estou envelhecido, acabado, por isso muito eu tenho chorado/ eu não posso esquecer o meu passado...”

Bárbara essa música. Amo Nelson Cavaquinho e acho a coisa mais linda aquele verso “tira o teu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. Poesia pura. É da Flor e o Espinho e o verso é do parceiro Guilherme de Brito, o mais constante.
Nelson Cavaquinho virou saudade e está recebendo um monte de homenagens. Fica aqui a minha – singela recordação de uma noite que jamais sairá da minha memória.
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Fui ver Tim Maia, o musical do Nelson Motta. Sensacional! O menino, o Tiago Abravanel, é realmente um espanto. Tal como Bibi em Piaf e Marília em Carmen Miranda, ele recebe de frente o espírito daquele cantor que também marcou época na minha juventude e em toda a minha vida. O impacto que foi o primeiro LP do Tim, aquele em que ele cantava Primavera, é coisa que não esquecerei jamais. Estou escrevendo e vendo a capa na minha frente. Ouvi muito aquele disco.
A última vez que assisti a um show do Tim foi no Metropolitan da Barra, meses antes de sua morte. Fui com meu amigo Aleluia, que, no final do espetáculo, profetizou: “Comadre, acho que essa foi a última vez que vi o Tim Maia.” Ele já estava muito mal, apesar de ter feito o melhor show que poderia naquelas circunstâncias. Tim Maia desperdiçou sua vida. Uma pena. Era talento puro. Um vozeirão que não sei quando ouviremos outro igual. Aliás, minto: ouvimos todos na plateia do Oi Casagrande completamente lotado: mais de mil pessoas aplaudindo freneticamente. Da turma da van – velhinhas de cabelo azul, senhores trôpegos de bengala na mão – à rapaziada sarada da hora, passando por jovens casais e coroas descolados. Quando acabou o show, ninguém arredava pé. Gritavam u-hu!, volta Tim, bravo e coisas do gênero. O artista bisou e o povo queria mais. Acabamos todos sendo brindados com um Parabéns pra você: naquele dia, Tiago comemorava seus 24 aninhos. Vida longa a ele.
Tim Maia é uma saudade gostosa. Como Nelson Cavaquinho.
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Felizmente, ambos estão sendo lembrados como merecem. Antes que se cumprisse o alerta feito por Nelson no samba Quando eu me chamar saudade e que, aliás, cabe como uma luva a todos os artistas e músicos que nos presentearam com a sua arte: “Mas depois que o tempo passar/sei que ninguém vai se lembrar/ que eu fui embora/Por isso é que eu penso assim/ se alguém quiser fazer por mim/que faça agora...”
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Na imortalidade bendita, Tim, entretanto, leva a melhor. Ele não vai virar saudade, enquanto o Tiago incorporá-lo – ver e ouvir Tiago é ver e ouvir Tim.
Um consolo, no final das contas.
