Sentada em cima do bueiro da Light
Fico muito impressionada sempre com a tranquilidade que, não apenas aparentam, como realmente sentem, essas figuras que entram e saem de governos geralmente envolvidos naquelas tenebrosas transações que o Chico Buarque canta há tantos anos.
A diferença, agora, é que o Chico está posicionado do lado de lá – ideologicamente, é claro, que ele não precisa sujar as mãos nem o violão em transações com essa gente que vive com tanta serenidade em pleno inferno.
Como é possível alguém encarar com serenidade a perspectiva de ficar 1.727 anos na prisão? Ou 111? Ou 941? Fica sereno porque sabe que a sentença é humanamente impossível. E segue serelepe aprontando todas. Bota o peralta em cima do bueiro.
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Quer dizer que o R$ 1, 7 milhão, aquele troquinho apreendido com os aloprados, pode ir para os cofres de uma instituição filantrópica? É uma bela ideia, mas, para que todos os brasileiros possam realmente crer que esta doação será feita, sugiro de antemão que a mídia arme o circo e o Ministério Público Federal faça a entrega da dinheirama
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comme il faut*: que a pilha de dinheiro seja doada ao vivo e em cores – de preferência em espécie – em rede de televisão ao vivo para todo o Brasil. Não é uma? Quem garante que este dinheiro vai ser efetivamente repassado a uma ou várias - como seria mais coerente com a miséria em que todas vivem – obra de caridade? Eu não confio nessa gente. Alguém confia? A chance de novos aloprados surgirem para desviar a verba, como sabemos, é de quase 100%.
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Tampa de bueiro da Light, de verdade, é o tal do Pagot, diretor do Dnit. Se abrir a boca pra valer, muita gente vai voar longe. Isso é Brasil. O Pagot e os bueiros da Light. Ninguém merece. A falta de respeito é tudo o que os brasileiros recebem, entra governo, sai governo. Desanima, dá vontade de largar tudo e sumir. Pensando bem, não precisa: sento em cima do bueiro.
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Domingo passado, fui a Teresópolis, point das minhas férias de infância e adolescência, e pela primeira vez dei graças por não mais ter a minha casa, tão lindinha, na Rua Sloper. Sucessivas administrações de décima categoria transformaram a cidade num mafuá deprimente. E isso nada tem a ver com as enchentes de janeiro. Vem de longa data. Abastardaram Terê. Desfiguraram uma das mais belas paisagens do Estado do Rio de Janeiro. Se dependesse de mim, os prefeitos das últimas gestões seriam todos distribuídos por várias tampas de bueiros no Rio. Quero ver serenidade aí.
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O Rio anda lindo nesses dias de inverno com sol. Civilizado. Europeu. Nada daquela canícula de 40 graus. É muito engraçado ver as fatiotas das criaturas nas ruas e nas festas. Como o Rio raramente pede um suéter, é de matar de rir ver madame de casaco de pele em almoço de churrascaria. Hilário. O frio andou brabeira. Não estava pashimina, não, como diria aquela fashionista, gozando os modelitos invernais dessa gente bronzeada que está mais pra canga e sandália de dedo. Neste Rio 12 graus, o bueiro assassino estupra a bela paisagem
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Ainda impressionada com a serenidade de uns e outros, em casa enrolada em manta porque lá fora está muito frio e os bueiros estão à espreita, me despeço cantando Chico Buarque, o Chico da resistência: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”
