A babá
A morte da babá Norma no trágico acidente no Sul da Bahia, que ceifou tantas vidas trágica e prematuramente, me fez mais uma vez pensar em como essas criaturas – que muitas vezes são vistas apenas como acessórios uniformizados a serviço da elite endinheirada – são importantes na formação de uma criança, o quanto de carinho e amor elas tiram de suas reservas para generosamente dar aos filhos de outros.
É claro que há aquelas perversas, que já encheram o noticiário com crueldades inomináveis, mas, no mais das vezes, são pessoas insubstituíveis no dia-a-dia de mães que trabalham – e todas trabalham hoje em dia.
Leio que a babá Norma trabalhava há 16 anos na família Magalhães Lins e que pretendia se aposentar em breve e voltar para construir uma casinha em sua cidade no interior da Bahia. Assim contou sua filha. Choro por Norma.
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As lembranças da minha babá são inevitáveis. Até pelo detalhe da casinha. A babá se chamava Salvina, mas tinha justo horror ao seu nome. Mamãe rebatizou-a de Maria. Entrou lá em casa quando a mana nasceu e eu tinha 2 anos. Só deixou o posto quando eu já tinha mais de 12 anos, quando foi trabalhar com mamãe no Hospital dos Servidores do Estado. Não precisou deixar a construção da casa para as calendas gregas. Tinha um terreno em Campo Grande e lá construiu a casinha, onde – solteirona -abrigava sobrinhos mais ou menos aproveitadores. Foi uma babá inesquecível: negra imponente, sempre muito bem uniformizada e engomada, era catolicíssima, tinha rígidos princípios morais e era severa – não dava mole pra gente. Mas oferecia, aos trancos e barrancos, um amor imenso que se traduzia nos perfeitos laços que dava nos vestidos e nos cabelos, nos cuidados diários com a limpeza das unhas, dos dentes, dos ouvidos, nas histórias de santos e assombrações que gostava de contar – e como nós gostávamos de ouvir! Pensando bem, a babá era o par perfeito para a vovó: duas pessoas secas, sem muito nhenhenhém, mas que não falhavam jamais. Estavam sempre ali, do lado, para o que desse e viesse. Portos seguros.
Isso era vital para nós, já que mamãe, viúva, passava o dia na rua, ganhando a vida, provendo, a função de chefe de família que sempre teve. Ela não teria dado conta do recado sem essa retaguarda.
Devo à minha babá muito do que sou. É amor eterno.
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Meu filho teve poucas babás. A mais importante foi a Lourdes, que era ( e ainda espero que seja) uma figuraça. Única. Mineira, viúva, já tinha uma aposentadoria quando foi trabalhar lá em casa. Apareceu para a entrevista enrolada em xale lilás, voz suave, muita história pra contar. Foi contando, contando, e ficou.
Lourdes literalmente tomou conta da minha vida. Esteve ali, comigo, ao meu lado, me dando o maior apoio, em momentos de muita fragilidade: no espaço de um ano, me separei e perdi minha mãe. Foi então que ela virou minha babá também.
Um dia, comprou um Opala usado, que guardava na garagem. Paradão. Ela não sabia dirigir. Eu disse: ela era uma figuraça. O carro ficou lá, anos e anos. Tempos depois, meu filho já adolescente ( e aborrecente, por supuesto) aprontou alguma, ela ficou injuriada e resolveu ir embora. Foi um baque, foi um horror. Tudo se ajeita, porque tudo acaba se ajeitando, mas eu me incomodava porque ela nunca mais apareceu e eu sentia muito a sua falta.
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Coisa de universo paralelo, às vésperas do casamento do meu filho, ela reapareceu. Como já não morávamos no mesmo endereço, conseguiu nos localizar através da minha irmã. Ela viu seu menino casar. Chorou comigo. Adorou a festa. E, depois, sumiu outra vez. Quase dez anos. Onde andará Lourdes?
A babá Norma mexeu comigo. A gente nunca pode esquecer de quem nos ajudou a ser mãe.
